Elogio à loucura
Muito me chamam de
louco,
Em sugestões ou em tom de desdém,
Porque entendem muito pouco
Do fogo que a alma contém.
Julgam a minha entrega,
O meu peito sempre aberto,
Essa pressa que não nega
Um abraço no deserto.
Mas por trás da falsa
ironia
E do medo de que os façam recuar,
Mora a secreta agonia
De não saberem se lançar.
No fundo de cada
julgamento,
Há um desejo guardado e profundo:
Inveja do meu sentimento,
Da coragem mais rara do mundo.
Dizem que sou insensato,
Mas sei o que eles querem ser:
Quem dera precisou o pacto
De ter a minha audácia de querer.
Que me chamem de louco,
eu aceito,
Enquanto eles assistem da margem.
Eu sigo vivendo no peito
O amor que exige coragem.
Encontro Divino
Encontramo-nos na Missa
da Misericórdia Divina,
Onde o tempo se cala e o céu se inclina.
Sob o olhar do Cristo
que estende a mão,
Derrama-se a graça em cada coração.
Do peito aberto brota a
dupla fonte,
Luz que ilumina além do horizonte,
O raio vermelho, o raio que é cândido e puro,
Guia nossos passos em meio ao escuro.
Na mesa sagrada, o pão
se faz vida,
Cura profunda da alma ferida.
Não há mais peso, temor
ou condenação,
Apenas o abraço do Deus do perdão.
Saímos renovados por
esse amor sem fim,
Que sussurra baixinho: "Confia em mim".
Unidos na prece que a fé
ilumina,
Nós nos encontramos na Misericórdia Divina.
Devanir amoroso
O amor não é um marco
fixo, estátua de sal na margem,
mas o rio que deságua em si mesmo, mudando a paisagem.
Não nasce pronto como o fruto colhido no pomar,
É o lento fermentar do tempo, o eterno vir-a-ser, o caminhar.
Fomos ontem a faísca, o
susto, o anúncio do vendaval,
Duas margens distantes buscando o mesmo canal.
Hoje somos a correnteza, o leito profundo que acolhe,
A árvore que aceita o outono e a folha que o vento escolhe.
E amanhã seremos outra
textura, outra forma de ver,
Pois amar é uma coragem contínua de desaprender.
Não há porto seguro no
peito que decide se entregar,
Há apenas o horizonte movido e a promessa de navegar.
Muda o gesto, muda a
fala, muda o ritmo da mão,
O afeto que era urgência vira mansa pulsação.
No tear dos dias longos, o nós vamos se costurando,
Nunca estático, nunca idêntico, sempre se transformando.
Porque o amor só permanece
vivo se aceita transitar:
é o eterno virar início quando tudo parece terminar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário