O poeta de Pirangi

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O Poeta de Pirangi

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

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 Elogio à loucura

 


Muito me chamam de louco,
Em sugestões ou em tom de desdém,
Porque entendem muito pouco
Do fogo que a alma contém.

 

Julgam a minha entrega,
O meu peito sempre aberto,
Essa pressa que não nega
Um abraço no deserto.

 

Mas por trás da falsa ironia
E do medo de que os façam recuar,
Mora a secreta agonia
De não saberem se lançar.

 

No fundo de cada julgamento,
Há um desejo guardado e profundo:
Inveja do meu sentimento,
Da coragem mais rara do mundo.

 

Dizem que sou insensato,
Mas sei o que eles querem ser:
Quem dera precisou o pacto
De ter a minha audácia de querer.

 

Que me chamem de louco, eu aceito,
Enquanto eles assistem da margem.

 
Eu sigo vivendo no peito
O amor que exige coragem.

 

Encontro Divino

 

Encontramo-nos na Missa da Misericórdia Divina,
Onde o tempo se cala e o céu se inclina.

 

Sob o olhar do Cristo que estende a mão,
Derrama-se a graça em cada coração.

 

Do peito aberto brota a dupla fonte,
Luz que ilumina além do horizonte,
O raio vermelho, o raio que é cândido e puro,
Guia nossos passos em meio ao escuro.

 

Na mesa sagrada, o pão se faz vida,
Cura profunda da alma ferida.

 

Não há mais peso, temor ou condenação,
Apenas o abraço do Deus do perdão.

 

Saímos renovados por esse amor sem fim,
Que sussurra baixinho: "Confia em mim".

 

Unidos na prece que a fé ilumina,
Nós nos encontramos na Misericórdia Divina.

 

Devanir amoroso

 

 

O amor não é um marco fixo, estátua de sal na margem,
mas o rio que deságua em si mesmo, mudando a paisagem.


Não nasce pronto como o fruto colhido no pomar,
É o lento fermentar do tempo, o eterno vir-a-ser, o caminhar.

 

Fomos ontem a faísca, o susto, o anúncio do vendaval,
Duas margens distantes buscando o mesmo canal.

 
Hoje somos a correnteza, o leito profundo que acolhe,
A árvore que aceita o outono e a folha que o vento escolhe.

 

E amanhã seremos outra textura, outra forma de ver,
Pois amar é uma coragem contínua de desaprender.

Não há porto seguro no peito que decide se entregar,
Há apenas o horizonte movido e a promessa de navegar.

 

Muda o gesto, muda a fala, muda o ritmo da mão,
O afeto que era urgência vira mansa pulsação.


No tear dos dias longos, o nós vamos se costurando,
Nunca estático, nunca idêntico, sempre se transformando.

 

Porque o amor só permanece vivo se aceita transitar:
é o eterno virar início quando tudo parece terminar.

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