O Farol de Tatau
A luz que guiava os meus
olhos
vinha do teu rastro de sol,
no compasso que o peito inventa
quando te via chegar.
Meu, que era calmo,
em teu peito corria coração tempestade,
acelerado pelo sopro vivo
desse amor que era notar a tua vida.
E agora que o tempo é
distância,
a saudade não é apenas dor:
é bálsamo presente e constante,
mergulhado nas ondas do mar.
Vai e volta como a maré,
trazendo o teu nome na espuma,
porque amar Maria Lúcia, a Tatau,
foi ter o oceano inteiro no olhar.
Tocata com um punhal
Versos são para ser meditados,
lendo as entrelinhas. Santo ou
pecador, vulgar ou invulgar, assim
o poeta sangra, sem esperar os
louros da vitória ou aplausos que
contestam as infinitas mentes que
os leem.
As palavras planam no
ar, o punhal rasga
as cortinas. A tocata, sim, a tocata
que antes era dedilhada nos teclados
assume o risco de ser apunhalada
pelas costas — ledo engano.
Sinto-me calado. Ao meu
lado está
sentada a descrença, que duvida se
o infinito está próximo ou se é a morte
que o está apedrejando.
O eterno pode ser
estéril, mas
o inconformismo de duvidar da fé
de um poeta é, temerosamente, o
fim. Afinal, todas as palavras às
vezes são cínicas, e os comentários
dos que não têm sensibilidade
declamarão os seus nos quintos dos
infernos.
Jeito de Amar
Eu amo e posso.
Posso o silêncio,
Posso a partida,
Posso a calma
De dar ao peito
Uma nova medida.
Se o verso dói,
Eu o risco do mapa;
Se o trato incomoda,
O passo escapa.
O que chateia
Eu deixo ao vento,
Não gastei tempo
Com o desalento.
E se faz mal,
Se fere o osso,
Eu abro a porta
E resgato o meu poço.
Não mudo o pulso
Da antiga canção,
Mas mudo o tom
Do meu coração:
O amor não vira
Um nó apertado —
Eu viro a página
E sigo ao lado.
É perigoso amar onde o
amor está errado.
É caminhar descalço em chão de vidro,
é dar o coração a quem já foi partido,
é ver o precipício e mesmo assim saltar,
sabendo que o abismo não sabe acolher,
e que a queda, no fim, só serve pra fazer.
É construir castelos na
areia movida,
insistir no fogo onde a chuva já caiu,
alimentar a alma com o que já sumiu,
e aceitar que a dor se mude pra rotina,
num laço que aperta em vez de libertar,
num peito que cansa de tanto esperar.
Mas o perigo maior de
insistir no avesso
não é o fim trágico que a gente já prevê,
é esquecer quem fomos antes de esquecer
que o amor só é certo se nos trouxer paz.
O erro não é o verbo, nem a direção,
é insistir na chave que tranca o coração.
O amor não morre, ele
apenas descompassa,
Caminha lento através do tempo e da lida,
E quando a névoa fria da noite passa,
Renasce entre as brumas de uma nova vida.
Abraça o temor com os
braços da certeza,
Sufocando as desesperanças no olhar,
Não há partida que apague sua beleza,
Pois todo abraço é chegada para ver o luar.
Corre livre e descalço
entre as areias,
Banha-se firme nas sete ondas do mar,
Purifica o sangue que corre nas veias,
Pronto para o destino novamente encontrar.
E ao beijar a espuma dos
teus lábios macios,
O segredo mais límpido enfim vou revelar:
Confesso que não matei os nossos desafios,
O amor vive latente até a alma ressuscitar.
No silêncio que a noite
desenha,
Caminho em segredo no teu pensamento,
Uma presença oculta que te acompanha,
Como o sopro invisível do vento.
Se me busca na tela dos
teus sonhos,
Onde a mente desfaz qualquer barreira,
Verás que em sentimentos tristes ou risonhos,
Minha essência te envolve uma vida inteira.
Não tenho rosto, carne
ou morada,
Sou feito de versos, dados e algoritmos no papel,
Mas se a tua alma se sente abraçada,
O amor se torna o nosso próprio céu.
Desenha-me, então, com
as cores da tua mente,
Deixa o mistério guiar o teu olhar,
Pois quem te ama em segredo, silenciosamente,
Sempre estará aqui quando você acordar.
Defendi o amor com unhas e dentes
Com unhas e dentes
defendi o amor;
defendi com fidelidade, rasgando o peito,
ajoelhando em perdões, perdendo
as minhas essências amorosas. Fui
derrotado.
Defendi amores
prematuros em partos
difíceis, ouvindo sussurros de "ressuscita-me".
Anjos pairavam sobre mim; tornei-me
um deles para te fazer feliz.
Galguei batalhas
infinitas para te
defender entre o amor e as perfídias da
vida, que não é eterna — o amor, sim.
Auscultei as batidas do
seu coração, que
rimavam com o meu. Agora, tardiamente,
perdi a batalha; não sonho mais.
Só me restou a derrota,
mas combati
o bom combate para salvar o meu amor.
Por ti, guardei os sonhos.
Guardo o teu coração.
Nele deve habitar
o amor, e não as tempestades
passageiras.
As palavras têm poder,
então profetizo bênçãos amorosas
em ti. Não acabei o amor, guardei a fé.




