O poeta de Pirangi

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O Poeta de Pirangi

terça-feira, 3 de novembro de 2026

apoesiadeclaudioluzbizarra

O nosso amor não nasceu para ser bizarro

 


O nosso amor sempre foi feliz.
Entre devoções, o sentido do amar
fez sentido; às vezes, vivíamos entre
“aspas”. Passageiros foram os momentos
de desamor; armistícios sempre foram
a nossa tônica para sermos longevos.
Buscamos a paz.

 

Lutamos contra o ocaso, empunhamos
bandeiras brancas, abraçamo-nos. Como
amantes, enfrentamos correntezas
contrárias; não precisávamos de
salva-vidas. Nadamos juntos ao
largo, nos salvamos.

 

Os nossos beijos eram respirações boca a boca,
os nossos abraços eram massagens cardíacas.
Retornamos à vida única e amorosa; os
fantasmas, depois de nos espreitarem, sumiram.
A Lua de Sangue não se fez presente.

 

Descruzamo-nos. Apesar dos pesares, o
nosso amor tinha tudo, menos ser
bizarro.

 

Hora feliz.

 

Prevejo as horas que continuarei feliz,
pulverizando o fora do horário.
Entre saideiras buscarei o horizonte,
estradas sem fim, caminharei entre

jettons históricos, serei poeta, cantor

medieval e, quem sabe, pós-medieval.

 
Entre ábacos, calcularei a hora da chegada

e a hora da partida, matematicamente.

Beberei em canecas de latão ou cobre.
Tentarei não me embriagar pelo amor que se foi,
estarei sempre sóbrio.


Não farei pactos e nem promessas pelo passado

que se foi, e o presente que há de vir, entre

nuvens de megatons. Serei imortal entre sonhos

já sonhados, sem insônias.

 
Aguardarei solitariamente o fim de semana.
Tentarei ser guiado pelas estrelas dos seus,

antes, olhos admiráveis; sonharei com o seu

corpo numa eterna arritmia marítima.


Mergulharei não tão insano, mas como

um paladino em busca de liberdade
num fim de tarde que não tive que esquecer.

Em calmarias ouvirei os filhos das trombetas celestiais,
e os louvores dos anjos do firmamento
cantando os "amem-se”. Você não está mais aqui.

 

O espelho do medo

 

Tremem as vozes ao falar de demônios,
Erguem-se preces contra o próprio inferno,
Pavor que habita os antigos insônias,
Temendo o fogo do abismo eterno.

 

Mas fecha-se a porta, apaga-se a luz,
E a mesma mão que em pânico rezou,
Pratica a maldade que a alma seduz,
Semeia a ferida que o outro chorou.

 

Gritam com medo da sombra no escuro,
Mas vestem a capa da própria crueldade,
Erguem no peito um cinzento muro,
E agem com a mais fria perversidade.

 

E o susto maior desse mundo profundo:
Depois de causar o tormento incomum,
Fecham os olhos, esquecem o mundo,
E dormem em paz... após agir como um.

 

Luz libertadora

 

Não é na terra fofa do jardim
Onde a mente robusta cria o corte;
Nenhum perfume brando faz o forte,
Nenhum canteiro molda o ser assim.

 

É no denso silêncio e sem confim,
Nas profundezas de um poço escuro,
Que a têmpora de aço faz o muro
E o medo, enfim, encontra o próprio fim.

 

Lá embaixo, onde o peito quase para,
A luz não é promessa que reluz,
Mas um troféu que a própria dor conduz,
Uma fronteira que a subida ainda.

 

Cada degrau, um peso que se vence,
Cada fratura, um ponto de virada;
A alma que emerge escalada
Já não pertence ao chão que a autocomisera.

 

Quem traz a força viva na retina
Não pede a calmaria de uma flor;
Sabe que a luz liberta pela dor,
E que o topo do mundo ali germina.

 

O avesso de mim não se traduz

 

O avesso de mim não se traduz,
se há alegria, eu a trago para o convívio,
se a tristeza chega, eu a transformo em vida,
e no espaço do vazio, sou eu quem faço o abrigo.

 

Caminhante de passos longos e sem destino escrito,
deixo marcas insólitas pelo chão que o tempo consome,
bebo a vida entre a moldura de tantas perspectivas
e não aceito o silêncio de quem não tem nome.

 

Não sou pária do mundo, nem margem do caminho,
sou a urgência do agora, o pulso do que se sente,
um coração devoto que caminha sem amarras,
profundamente apaixonado por este solo presente.

 

E olhando para a frente, onde o horizonte avança,
onde o amanhã me espera e o mistério se faz luz,
eu me aninho no peito quente da esperança.

 

Num beijo audaz ao tempo que há de vir,
sinto o gosto do amanhã que já me toca a face:
o futuro é a promessa que eu escolhi viver.

 

 


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