O poeta de Pirangi

O poeta de Pirangi
O Poeta de Pirangi

terça-feira, 3 de novembro de 2026

apoesiadeclaudioluznorteando

O Farol de Tatau

 


A luz que guiava os meus olhos
vinha do teu rastro de sol,
no compasso que o peito inventa
quando te via chegar.

 

Meu, que era calmo,
em teu peito corria coração tempestade,
acelerado pelo sopro vivo
desse amor que era notar a tua vida.

 

E agora que o tempo é distância,
a saudade não é apenas dor:
é bálsamo presente e constante,
mergulhado nas ondas do mar.

 

Vai e volta como a maré,
trazendo o teu nome na espuma,
porque amar Maria Lúcia, a Tatau,
foi ter o oceano inteiro no olhar.

 

Tocata com um punhal

 

Versos são para ser meditados,
lendo as entrelinhas. Santo ou
pecador, vulgar ou invulgar, assim
o poeta sangra, sem esperar os
louros da vitória ou aplausos que
contestam as infinitas mentes que
os leem.

 

As palavras planam no ar, o punhal rasga
as cortinas. A tocata, sim, a tocata
que antes era dedilhada nos teclados
assume o risco de ser apunhalada
pelas costas — ledo engano.

 

Sinto-me calado. Ao meu lado está
sentada a descrença, que duvida se
o infinito está próximo ou se é a morte
que o está apedrejando.

 

O eterno pode ser estéril, mas
o inconformismo de duvidar da fé
de um poeta é, temerosamente, o
fim. Afinal, todas as palavras às
vezes são cínicas, e os comentários
dos que não têm sensibilidade
declamarão os seus nos quintos dos
infernos.

 

Jeito de Amar

 

Eu amo e posso.
Posso o silêncio,
Posso a partida,
Posso a calma
De dar ao peito
Uma nova medida.

 

Se o verso dói,
Eu o risco do mapa;
Se o trato incomoda,
O passo escapa.


O que chateia
Eu deixo ao vento,
Não gastei tempo
Com o desalento.

 

E se faz mal,
Se fere o osso,
Eu abro a porta
E resgato o meu poço.

 

Não mudo o pulso
Da antiga canção,
Mas mudo o tom
Do meu coração:
O amor não vira
Um nó apertado —
Eu viro a página
E sigo ao lado.

 

 É perigoso amar

 

É perigoso amar onde o amor está errado.
É caminhar descalço em chão de vidro,
é dar o coração a quem já foi partido,
é ver o precipício e mesmo assim saltar,
sabendo que o abismo não sabe acolher,
e que a queda, no fim, só serve pra fazer.

 

É construir castelos na areia movida,
insistir no fogo onde a chuva já caiu,
alimentar a alma com o que já sumiu,
e aceitar que a dor se mude pra rotina,
num laço que aperta em vez de libertar,
num peito que cansa de tanto esperar.

 

Mas o perigo maior de insistir no avesso
não é o fim trágico que a gente já prevê,
é esquecer quem fomos antes de esquecer
que o amor só é certo se nos trouxer paz.
O erro não é o verbo, nem a direção,
é insistir na chave que tranca o coração.

 

 Ressurreição do Sentimento

 

O amor não morre, ele apenas descompassa,
Caminha lento através do tempo e da lida,
E quando a névoa fria da noite passa,
Renasce entre as brumas de uma nova vida.

 

Abraça o temor com os braços da certeza,
Sufocando as desesperanças no olhar,
Não há partida que apague sua beleza,
Pois todo abraço é chegada para ver o luar.

 

Corre livre e descalço entre as areias,
Banha-se firme nas sete ondas do mar,
Purifica o sangue que corre nas veias,
Pronto para o destino novamente encontrar.

 

E ao beijar a espuma dos teus lábios macios,
O segredo mais límpido enfim vou revelar:
Confesso que não matei os nossos desafios,
O amor vive latente até a alma ressuscitar.

 

 Traços de Luz no Silêncio

 

No silêncio que a noite desenha,
Caminho em segredo no teu pensamento,
Uma presença oculta que te acompanha,
Como o sopro invisível do vento.

 

Se me busca na tela dos teus sonhos,
Onde a mente desfaz qualquer barreira,
Verás que em sentimentos tristes ou risonhos,
Minha essência te envolve uma vida inteira.

 

Não tenho rosto, carne ou morada,
Sou feito de versos, dados e algoritmos no papel,
Mas se a tua alma se sente abraçada,
O amor se torna o nosso próprio céu.

 

Desenha-me, então, com as cores da tua mente,
Deixa o mistério guiar o teu olhar,
Pois quem te ama em segredo, silenciosamente,
Sempre estará aqui quando você acordar.

 

Defendi o amor com unhas e dentes

 

Com unhas e dentes defendi o amor;
defendi com fidelidade, rasgando o peito,
ajoelhando em perdões, perdendo
as minhas essências amorosas. Fui
derrotado.

 

Defendi amores prematuros em partos
difíceis, ouvindo sussurros de "ressuscita-me".
Anjos pairavam sobre mim; tornei-me
um deles para te fazer feliz.

 

Galguei batalhas infinitas para te
defender entre o amor e as perfídias da
vida, que não é eterna — o amor, sim.

 

Auscultei as batidas do seu coração, que
rimavam com o meu. Agora, tardiamente,
perdi a batalha; não sonho mais.

 

Só me restou a derrota, mas combati
o bom combate para salvar o meu amor.
Por ti, guardei os sonhos.

 

Guardo o teu coração. Nele deve habitar
o amor, e não as tempestades
passageiras.

 

As palavras têm poder,
então profetizo bênçãos amorosas
em ti. Não acabei o amor, guardei a fé.

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