O poeta de Pirangi

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O Poeta de Pirangi

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

apoesiadeclaudioestilhaçadas

Lendas urbanas amorosas



Diz a lenda do tempo antigo
que o amor era um espelho,
brilhando no azul do céu
como um conselho divino.
Mas caiu pelas estrelas,
no chão do mundo cortado,
partiu-se em mil pedaços,
e o homem o encontrou.

 

Cada alma pegou um caco,
guardou no peito a lasca fina,
pensando ter em mãos
toda a verdade divina.


Ilusão de quem caminha
em sua própria solidão,
julgando ter o infinito
na palma de sua mão.

 

Pois o amor não se retém
em um fragmento qualquer,
não vive no isolamento
de quem só se ver quer.


Ele ganha eternidade,
cura a dor da fratura,
quando duas almas livres
descobrem a mesma altura.

 

O mistério se revela,
o milagre se faz chão:
quando dois seres caminham
olhando na mesma direção.


Não é olhar um pro outro
em busca de posse ou cais,
é fitar o mesmo horizonte
e não se perder jamais.

 

Amar é viver até a exaustão

 

Toquei o topo do que é humano,
provei a máxima felicidade em teu olhar,
e desfiz o nó de qualquer antigo engano:
compreendi que a vida só começa no amar.

 

Não teria nexo instalar as velas agora,
nem desejar o fim antes do tempo consentido,
se a alma descoberta a sua própria aurora
e o peito, enfim, bateu com acrescido sentido.

 

Amar é um incêndio que consome a calmaria,
uma urgência que não sabe o que é poupar,
é gastar a própria voz na mais pura melodia,
e a cada amanhecer, de novo, recomeçar.

 

Que venham os dias, as curvas e a imensidão,
pois já não há medo do cansaço ou do que virá:
amar é persistir, viver até a exaustão,
com a certeza de que nada disso em vai ser.

 

Musiquei o meu amor

 

Não sei quando os acordes acordam.
Ouvir músicas ao longo, tal qual
“Clarins” acompanhando um Concerto
Para um verão tardio. Inspire-me,
Despedindo-me da solidão. Não sou mais
só.

 

Como uma orquestra ambulante, a
música exprimia o que eu não podia dizer
em palavras. Permaneci no silêncio da
minha voz, que dizia: "Embriague-se".

 

Me embriagar ouvindo uma noite que
acompanhava as partituras em letras
perpendiculares, que exaltava o retorno
ao divã das minhas fantasias latentes,
agora amenizadas pelas promessas
oriundas do calor da noite que
cala. Médio.

 

Medito a falta dos seus sonhos infantis,
quando as sinfonias inacabadas nos dariam
respostas eloquentes no final de uma
tarde fluorescente.
Não musiquei o meu amor por ti.


Me sinto como notas musicais órfãs,
com paradigmas dissonantes, te
esperando na estação mais próxima,
para admirar os seus olhos desafiando
os meus.

 

E dizem que Boemia não existe

 

Um lamento antigo, o último gole,

Somos moicanos entre primeiros,

Saideiras e andadeiras. Não encerramos

O expediente noturno, natural.

 

Não encerraremos a boemia enquanto

Houver poesias, músicas, cabarés e

Bons amigos — incluindo os que partiram antes

De nós.

 

Filósofos a vida: liberdade é arte, e os prazeres

Às vezes custam mais caro. É pelo prazer dos

Encontros espontâneos que desafiam as

Horas e os esporros das nossas esperanças.

 

Sonhamos, entre doses homéricas, que

O Reino da Boêmia nos busca para

A República Tcheca, com o direito de

Solvermos bebidas na Transilvânia, na

Taça do Conde Vlad II Dracul, o

Príncipe dos boêmios noturnos.

 

Como diz o velho ditado, boêmio inventa

Até estórias. Vou levar mais uma para

Festejar o regresso de que a Boemia sempre

existe.

 

O resto é conversa de puritanos, que bebem

E dizem que não bebem. Quem for o primeiro a

Ir embora vai ser mulher do alambiqueiro.

Trato Feito.


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