Elegia A Morte Feliz
In memoriam de Albert Camus
Nos calçados gastos de
poeira e chão,
Crescia o menino em Argélia distante,
O peso do mundo em cada tostão,
E os olhos atentos ao mundo pulsante.
A mesa era pouca, o
labor era forte,
A infância entregue ao prato vazio,
Mas houve um mestre a mudar a sorte,
Um sopro de luz contra o vento frio.
À avó calejada, o mestre
falou:
"Este menino é joia incomum!"
E a bolsa de estudos o rumo
mudou,
Erguendo da lama o filho de um.
Ler, pesquisar, a mente
a expandir,
Olhar o asfalto, a praia, o revés,
Fazer das palavras a ponte a seguir,
Tornar-se professor de outros pés.
Na folha do jornal, na
voz da política,
O jovem argelino traçou seu caminho,
Com alma afiada, com lente perspicaz,
Rompeu o silêncio, não andou sozinho.
O primeiro Camus, que o
mundo observou,
Notava o detalhe, a farsa, o absurdo,
E a cada história que o homem legou,
Curou a cegueira de um século surdo.
Entre o Fogo e a Cinza
Eu sou a chama que pode
aquecer,
ou o silêncio de ver você arder.
Entro no fogo se for para te erguer,
mas viro pedra se o erro for teu ver.
A mão desenhada que puxa
do abismo
é a mesma que cruza os braços no cisma.
Não sou teu juiz, nem venho te punir:
sou reflexo exato do que vais escolher.
Escolhe o abraço, e eu
viro escudo;
Escolhe a queda, e eu ajudo a tudo.
Porque o calor que consome e a castiga
depende da estrada que o passo abriga.
Tudo é espelho.
Tudo é entrega.
O fogo não mente:
ele só entrega o que a alma carrega.
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