O poeta de Pirangi

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O Poeta de Pirangi

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

apoesiadeclaudioluzcamoniana

 Elegia A Morte Feliz

 


In memoriam de Albert Camus

 

Nos calçados gastos de poeira e chão,
Crescia o menino em Argélia distante,
O peso do mundo em cada tostão,
E os olhos atentos ao mundo pulsante.

 

A mesa era pouca, o labor era forte,
A infância entregue ao prato vazio,
Mas houve um mestre a mudar a sorte,
Um sopro de luz contra o vento frio.

 

À avó calejada, o mestre falou:
"Este menino é joia incomum!"
E a bolsa de estudos
o rumo mudou,
Erguendo da lama o filho de um.

 

Ler, pesquisar, a mente a expandir,
Olhar o asfalto, a praia, o revés,
Fazer das palavras a ponte a seguir,
Tornar-se professor de outros pés.

 

Na folha do jornal, na voz da política,
O jovem argelino traçou seu caminho,
Com alma afiada, com lente perspicaz,
Rompeu o silêncio, não andou sozinho.

 

O primeiro Camus, que o mundo observou,
Notava o detalhe, a farsa, o absurdo,
E a cada história que o homem legou,
Curou a cegueira de um século surdo.

 

Entre o Fogo e a Cinza

 

Eu sou a chama que pode aquecer,
ou o silêncio de ver você arder.
Entro no fogo se for para te erguer,
mas viro pedra se o erro for teu ver.

 

A mão desenhada que puxa do abismo
é a mesma que cruza os braços no cisma.
Não sou teu juiz, nem venho te punir:
sou reflexo exato do que vais escolher.

 

Escolhe o abraço, e eu viro escudo;
Escolhe a queda, e eu ajudo a tudo.
Porque o calor que consome e a castiga
depende da estrada que o passo abriga.

 

Tudo é espelho.
Tudo é entrega.
O fogo não mente:
ele só entrega o que a alma carrega
.

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