O poeta de Pirangi

O poeta de Pirangi
O Poeta de Pirangi

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Deixa que eu conto

 


(Casos e Causos Pirangienses e Itajuípenses)

 

Aniceto Barbeiro

 

Aniceto Barbeiro, natural de Conceição do Coité, migrou para Itajuípe, onde se estabeleceu como barbeiro e se tornou uma personalidade folclórica.

Certo dia, o prefeito da época, Humberto Badaró, sentou-se na cadeira para ser barbeado, e surgiu o seguinte diálogo, em virtude de ao terminar qualquer barbeamento, Aniceto tinha uma pergunta já conhecida dos demais clientes do estabelecimento.

- Doutor o senhor quer arco, tarco ou quer que mói? – Perguntou Aniceto,

Ao ouvir a inquirição, Humberto também fez uma pergunta:

– Aniceto, se você falar uma palavra certa eu lhe dou 500 cruzeiros! – inqueriu.

De pronto, Anicieto respondeu:

- Cuma?

E assim Aniceto perdeu de ganhar a grana extra e se contentar com o pagamento normal.

 

Noel sem almoço

 

“Mané Sem Almoço” exercia a profissão de alfaiate e era um dos militantes do Partido Comunista (PC), até eclodir a Redentora de 1964.

Como era de costume, no domingo, religiosamente ele visitava a residência do prefeito, para degustar aperitivos de primeira ordem.

Em num desses domingos, ele chegou no horário de costume, depois de algumas doses homéricas, ao sentir o aroma da comida, de pronto falou para o prefeito:

- Prefeito, estou me convidando para almoçar contigo! – convidou-se.

Não ficou sem resposta, pois de pronto o prefeito respondeu:

- E eu estou te desconvidando – disse no ato.

 

Frei Raul Selback

 

Após a celebração do matrimônio de um casal que tinha laços familiares maçônicos, um dos membros da Loja Maçônica, por educação ou para pô-lo em prova, convidou Frei Raul, pároco da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, para comparecer à recepção aos noivos, que seria realizada nas dependências da Loja.

Até aí tudo bem, convite feito e pairavam dúvidas se o convidado compareceria, ou não.

No transcorrer da recepção eis que surge Frei Raul, com batina e tudo, para surpresa ou espantos dos presentes, que o receberam efusivamente, na esperança de aquele ato espontâneo do frei fosse um sinal de selar a paz entre a Igreja e a Maçonaria.

Em seguida, o reflexo.

Anos depois o Cardeal Primaz do Brasil, Arcebispo Dom Avelar Brandão, visitou à Loja Liberdade nº 1 e à Grande Loja da Bahia, precisamente no dia 11 de junho de 1976, quando o Cardeal abençoou o estandarte da Loja Liberdade e recebeu o Diploma de Benfeitor da Maçonaria.

Não se sabe até hoje se Dom Avelar Vilela apenas seguiu o gesto de Frei Raul.

Despedida

 

Na Micareta de 1971, festa tradicional que era realizada anualmente pela administração municipal, Frei Henrique Woltering, espontaneamente, participou de um dos bailes no Esporte Clube Bahia, para espanto das beatas que acharam a atitude do frade uma heresia.

No mesmo ano Frei Henrique foi vítima de um acidente automobilístico que ceifou sua vida, precocemente. Foi o que bastou para que as beatas vaticinassem que a morte foi um castigo de Deus, por ter o frade participado do baile carnavalesco.

 

Buick

 

Buick era um cachorro de estimação do trapicheiro Braga e de sua esposa, criado a pão de ló, e com direito a dormir no sofá como sua mãe.

Certo dia Buick cruzou com a cadela, que era a sua mãe, dito e feito.

Numa manhã o magarefe Liu, vascaíno doente, ia passando pelo passeio da residência de Braga, quando ouviu o desabafo da esposa de Braga, que vaticinou:

- Seu Liu, Buick vai para o inferno! – pregou.

Estupefato com a condenação do pobre animal, perguntou o que houve, e a esposa de Braga exclamou:

- Buick, comeu a própria mãe, sem meio termo - respondeu.

 

Zé sergipano

 

Durante décadas Itajuípe se destacou em realizar memoráveis Micaretas do sul-baiano.

Dezenas de trios renomados deliciavam os foliões da cidade e da região, que vinham em massa à famosa festa.

Os bailes momescos eram realizados no Esporte Clube Bahia, na região central do município, e sempre eram organizados pelos membros da Loja Maçônica Acácia do Sul.

Na década de 70, os organizadores dos festejos foram surpreendidos por assaltantes que surrupiaram a renda em sua totalidade.

Como nos tempos do velho oeste foi organizada uma tropa de choque para perseguir os meliantes.

Durante a perseguição Zé sergipano, um dos integrantes, ao retornar após a captura dos assaltantes, ao relatar a aventura para diversos curiosos saltou a seguinte perola:

- Eram eles picados na frente e nós embocetados atrás – vangloriou-se.

 

O Jeep do Socadinho

 

Em outra Micareta, alguns jovens vieram de Ilhéus para participar do evento. Já de madrugada, como não havia transporte, eles se depararam com um Jeep, de propriedade de Socadinho. Dito e feito, fizeram a ligação direta do veículo e rumaram para Ilhéus.

Pela manhã quando Socadinho acordou, deu por falta do veículo e imediatamente deu queixa do provável furto.

Durante o dia algumas diligências foram feitas sem sucesso, quando de repente chega a notícia alvissareira de que o veículo estava estacionado no Cemitério Nossa Senhora da Vitória, próximo à igreja.

Os prováveis jovens, antes ladrões, só queriam o veículo para retornar a Ilhéus.

 

Delegado Solano x Josa encanador

 

Solano foi um delegado de polícia no tempo em que a indicação política de pessoas sem formação jurídica denominava-os de “calça curta”, e exercia a função de acordo com as condições sociais do acusado.

E Leite era um encanador de primeira linha, junto com os irmãos.

Os irmãos Leite, também exploravam os famosos barquinhos que eram instalados em épocas natalinas e quermesses.

Já em idade avançada, depois de ter exercido o cargo policial, Solano era usuário de doses de pinga e de torrados (cheirar tabaco).

Em suas caminhadas diárias, Solano era indagado por Leite, que perguntava:

- Solano que alugar a garagem! -.

Solano respondia:

- Vai alugar a garagem de sua mãe e seguia em frente -.

Essa importunação era repetida todos os dias.

Um dia, sabe se lá das preocupações que Leite, o encanador, se encontrava absorto. Solano passou e Leite não repetiu o velho refrão (- Solano, não quer alugar a garagem? -.).

 

De pronto, Solano se virou para Leite e perguntou:

- Não vai bulir comigo hoje não, seu filho da puta? -.

Depois do ocorrido, Solano seguiu adiante com um sorriso nos lábios como se tivesse derrotado Leite, o encanador, que ficou cabisbaixo.

 

O cego Fortunato

 

Fortunato era um cego que se acomodava em frente à Delegacia de Polícia, na baixada da rua Jayme Gomes Ribeiro.

Durante o dia ele mendigava pedindo aos passantes e à noite dormia embaixo das marquises, como se dormitasse apenas para descansar para um novo dia de mendicância.

No decorrer, os alunos das escolas noturnas passavam no logradouro e mexiam com Fortunato, que respondia pelo incomodo:

- Vai te aquietar satanás, dorme de dia para mexer comigo à noite... -.

Outra artimanha era jogar pedras na cuia e Fortunato pensava que eram moedas. Aí então os impropérios eram destinados com o mesmo ‘Vai te aquietar satanás”, eu não como pedras não!

 

Oneur, o itajuipense

 

Durante uma campanha eleitoral o vereador Oneur, itajuipense de longa estepe, foi com uma comitiva do MDB itajuipense a um comício na cidade de Almadina.

O comício era em favor do candidato a deputado Leur Lomanto.

Oradores desfiavam elogios ao candidato, e Oneur seria o último antes da fala do candidato Leur.

Ao terminar o discurso, Oneur foi ovacionado como se fosse o candidato Leur, e os populares o pegaram e desfilaram pelas ruas da cidade com gritos de Neur, Neur...

Leur Lomanto ficou a ver navios e sem o discurso e Oneur, nos braços do povo. De coadjuvante passou a candidato a deputado, mesmo sem ser.

(De 01 a 10)

 

André da água

 

André da Água, servidor público exemplar, candidatou-se a uma vaga no legislativo itajuipense. De família numerosa pensou em ser eleito sem nenhum esforço e pouco fez para angariar os votos.

Como música de campanha ele adotou uma de Gilberto Gil, que no refrão dizia “a fé não costuma faiá”.

Quando saía em busca de votos ele cantarolava:

Andá com fé eu vou
Que André não costuma faiá
Andá com fé eu vou que André
Não costuma faiá...

Não logrando sorte nas apurações, ele cabisbaixo repetia

Faiou... faiou.

 

A placa dedo duro

 

Tinho Mentira, após poupar suas economias conseguiu realizar o seu sonho de consumo, comprando um Poisé (Fusca), para se deleitar e desfilar pelas ruas de Itajuípe.

Num certo domingo ele e um amigo, após tomar umas, dirigiu-se ao Jardim Badaró, e numa manobra infeliz colidiu com o Poisé em uma casa.

Após o episódio, ele fez a manobra pensando que ninguém tinha testemunhado o fato. Ledo engano, mais tarde chega seu Orcelino Alfaiate com a placa do carro para devolvê-la.

Como se diz: rato escaldado com o rabo de fora.

 

Zé Tiro Certo

 

Era um bon-vivant na acepção da palavra, galã Zé Tiro Certo consegue conquistar a garota dos seus sonhos. Até aí tudo bem, só que o pai da garota não consentiu o namoro, trazendo ressentimentos com o genitor da senhorinha.

Dito e feito: Um dia Zé resolveu tirar o caso a limpo e empunhando uma pistola se escondeu para tocaiar o futuro sogro.

Como não tinha muita experiência em tiro ao alvo, Zé engatilhou a arma e mirou na cabeça do desafeto, atirou e por sorte do sogrão o tiro acertou o salto do sapato da pretensa vítima.

Como prêmio, Zé Tiro Certo perdeu a amada, recuperando-a anos depois. Um sortudo!

 

Memu Pão

 

Memu Pão foi uma figura folclórica muito querida na comunidade itajuipense, participante ativa da Legião Feminina e beata de primeira ordem na Matriz do Sagrado Coração de Jesus.

Ao transitar pelas ruas de Itajuipe, era assediada pelas crianças com o seu apelido. Simplesmente ela fingia não estar incomodada, frustrando a criançada.

Num belo dia, o Cine Teatro Hage programou em uma de suas exibições o filme “Nemu a baleia assassina”. Foi o que bastou para a criançada trocar o Memu por Nemu. Aí, sim, Memu Pão, começou a se incomodar e a distribuir impropérios para a criançada.

 

Miro adunvinhão

                                        

Na década de 1970 foi eleito vereador Miro Adunvinhão. Após a investidura no cargo, ele se dirige a agência do Banco do Brasil para fazer abertura de conta-corrente e cadastro.

Ao iniciar a entrevista para o cadastro bancário, o gerente começou as perguntas de praxe, e Miro, ao ser indagado qual a sua profissão ele respondeu na maior calma:

- Aduvinhão! -.

A resposta provocou risos e o gerente respondeu:

- Seu Miro, aduvinhão não é profissão -.

Mas uma vez ele respondeu:

- É sim, eu sou cartomante e aduvinho as coisas, risos a parte -.

 

Homem de palavra

 

Na primeira Legislatura da Câmara Municipal de Itajuípe, no ano de 1955, a Presidência foi ocupada pelo vereador mais velho. Ao dar início à sessão, inadvertidamente, o presidente, em vez de declarar aberta a sessão, ele disse que estava encerrada a sessão.

Imediatamente foi advertido pelo secretário da mesa.

- Excelência, não é encerrada, é aberta a sessão -.

Sem titubear o presidente disparou:

- Sou homem de palavra, se eu disse que está encerrada, está sim -.

 

Coveiro às suas ordens

 

Em épocas remotas os coveiros eram tratados com indiferença, por medo ou pela função pouco ortodoxa, as pessoas se portavam com cerimônia.

E Pirangi, não ficava à parte. E Zé Coveiro era uma pessoa cortês, saudava as pessoas com o mote bom dia, coveiro às suas ordens!

Durante uma cerimônia de sepultamento de uma figura dita importante, na presença de muitas autoridades que compareceram para dar o último adeus ao ilustre partinte, entre eles estavam o prefeito do município, que se dirigiu ao coveiro com cortesia. Ao terminar os afagos, Zé Coveiro textualmente repetiu o jargão:

- Prefeito, estou aqui às suas ordens! -.

O prefeito torceu o nariz e disse:

- Lá ele! -.

 

Seu Lula x Dilé

 

No ano de 1982, durante a primeira edição do MicaPedro, umas das atrações foi o eterno Luiz Gonzaga, que desfilou as suas músicas para uma plateia atenta e dançante. Após aplausos intermitentes, seu Lua, desfiava mais uma.

Entre os presentes estava Dilé, boêmio e curtidor de forró, que gritou:

- Seu Lua, canta a Triste Partida (uma das músicas mais longa do repertório) –

De pronto, seu Lua dedilhou a sanfona e cantou efusivamente um dos hinos dos nordestinos, ao finalizar, Dilé, achou de pedi bis. Seu Lua nem pestanejou, levantou o dedão e mandou Dilé, tomar naquele lugar, levando a plateia ao delírio.

Depois ficamos sabendo, que seu Lua estava em tratamento de uma doença que lhe consumia os ossos (osteoporose), e se apresentou sentado num banco, para sustentar a sanfona.

E, Itajuípe foi o palco do último show de seu Lua em praça pública.

 

Zé Adami, o inventor, o terror dos funcionários públicos

 

Zé Adami residia na subida das Pitangueiras, com fundo para o rio Almada. Apesar de não ter estudos, se dava ao prazer da leitura de grandes escritores. Também era um excelente músico com o instrumento “Violino”.

Uma das atividades de Zé Adami era a curiosidade, e com esse costume ele conseguiu montar um sistema que captava água do Rio Almada e a transformava em energia elétrica através de um gerador criado por ele mesmo.

O fato chamou a atenção e ele foi denunciado à empresa de energia chamada C.E.R.C. (Companhia de Energia do Rio de Contas), que explorava o fornecimento de energia elétrica convencional, que destruiu o seu equipamento.

Na sua lida, todas as vezes que ele precisava dos serviços públicos instituídos e não era correspondido nos seus propósitos, escrevia para o presidente, governador ou prefeito, declarando insatisfação pela prestação dos serviços públicos.

E por incrível que pareça ele era atendido nos seus pleitos e logo chegava um representante dos poderes públicos nas repartições para tomarem as satisfações do porquê dos atendimentos insatisfatórios.

Isso bastou, pois quando seu Zé Adami adentrava em uma repartição federal, estadual ou municipal era de pronto atendido, de forma satisfatória, e aliviava a tensão dos apaniguados servidores públicos.

Lá vem seu Zé Adami, ecoava nas salas das repartições.

 

Aldemar, o carteiro

 

Em tempos idos a atual Empresa Brasileira dos Correios e Telégrafos (ECT), substituiu o antigo nome, que era Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT).

O carteiro Aldemar, fazia parte do quadro sempre deficiente em número de funcionários na agência local. Mas como era cumpridor das obrigações inerentes ao cargo, gozava de grande estima pelos colegas e usuários dos serviços prestados pela empresa.

Como se sabe, os serviços prestados pelos correios sempre foram confidenciais, até o destinatário receber as suas cartas, telegramas ou encomendas.

Só que esta regra, no que diz respeito aos telegramas, não era obedecida por Aldemar, que não conseguia se conter e antes mesmo de entregar a mensagem, já felicitava ou dava os pêsames aos destinatários, alguns pegos de surpresa por não saber o falecimento de um ente querido, até receber os pêsames, de Aldemar.

 

Os viciados na sétima arte, desde jovem

 

Pirangi/Itajuípe já foi uma cidade pródiga em cinemas que funcionavam também como teatro.

Figuraram desde os tempos remotos os Cines: Larocca, Pirangi, Glória, Éden, Hage, substituído pelo Cine Ana.

Vamos aos fatos: A Família Algibi era proprietária de um desses cinemas, elencados acima, que era administrado pelos filhos. De praxe, durante a semana era exibida uma sessão noturna e aos domingos tinha o matinal, a matinê e por último a soirée. Após o início das sessões, o patriarca se postava na frente do cinema e diminuía os preços dos ingressos para a meninada que não tinham o valor inteiro dos ingressos.

Dito feito, em uma das sessões um dos filhos tentou argumentar com o velho que ele não deveria diminuir os preços, pois assim estava prejudicando a renda das bilheterias.

De pronto o patriarca respondeu: Filho cobrando dessa meninada o valor menor dos ingressos, eles ficarão viciados em cinema e quando crescerem pagarão o preço normal!

 

Água de coco x whisky

 

Em um dos pleitos eleitorais, o juiz de Direito, à época autoridade temida pelo cumprimento das leis que ainda regem em nosso país, tinha os seus momentos de complacência, dependendo do grau de infração do réu.

Mas, vamos ao que interessa. Ao adentrar para verificação da secção eleitoral, notou que o fundo do imóvel onde foram instaladas as urnas estava muito movimentado.

Como qualquer pessoa comum, o juiz teve a curiosidade de ver o que estava acontecendo.

Indagou a um dos membros da secção, perguntando o porquê deles estarem ali, em vez de na mesa de recepção dos votos?

Um dos integrantes adiantou-se e respondeu ao meritíssimo: - Doutor, na nossa seção só estão faltando três eleitores para votar, como ainda são 11h30min, nós estamos aqui tomando uma aguinha de coco -.

Então o doutor se aproximou e perguntou:

- É água de coco, mesmo? -.

Acreditando na boa fé dos já quase enfartados membros da mesa, se afastou.

Que alivio, dentro do coco estava homéricas doses de whisky. De não de água de coco não tinha um gole.

 

O Lagartixa do plenário

 

Nas sessões plenárias da Câmara Municipal muitos são os projetos de lei, pedidos de providências, indicações, moções e discursos de todas as ordens apresentados.

Em uma das legislaturas os vereadores recém-empossados, alguns, como se diz, marinheiros de primeira viagem, que observava como os veteranos se portavam no exercício do múnus.

Neste período, um dos novatos em todas as proposições balançava a cabeça de um lado para outro ou para baixo ou para acima de acordo com a viabilidade de autorias do executivo e dos demais pares.

Em uma das sessões, um popular que assistia à sessão indagou:

- Esse vereador não discursa e fica só balançando a cabeça como se fosse uma lagartixa -.

Risos à parte dos demais presentes.

 

Pau no burro

 

Eleutério tinha como lema: “se eu comprei fiado é para ficar fiado. Se for pra pagar não é fiado”.

No início dos sorteios da Loteria Esportiva, o sonho de ficar rico era a aspiração de todos os apostadores, e Eleutério não ficava de fora, era um jogador de primeira linha.

Sem lograr êxito na marcação dos treze pontos, numa segunda-feira, Eleutério, sem ter um tostão furado, adentrou no Bar Gogó de Ouro, cujo proprietário era Zé da Moringa, um senhor sisudo, que levava o seu comércio a sério, vendendo fiado para garantir o capital investido e repor as mercadorias no tempo certo.

Com contas penduradas no bar, Eleutério chegou todo arfante e disse para o seu Zé da Moringa:

- Fiz os treze pontos da loteria esportiva, some aí minha conta! -.

Zé da Moringa pegou o borrador e se pôs a somar a dolorosa que dormia em berço esplêndido nas folhas gastas e amareladas.

Enquanto a conta era somada, Eleutério pediu a primeira cerveja. Após ingerida mais umas, pede tira-gostos, e Zé da Moringa, já com a mente manietada pelos argumentos de Eleutério, já não se importava com o consumo homérico do ganhador da loteria.

De vez em quando Eleutério, dizia “Pau no burro” e pedia mais uma e tira-gostos a rodo.

E pau no burro era repetido em espaços cada vez mais curtos.

No final, conta somada com os devidos acréscimos do dia, Zé da Moringa, com um ar imperioso, sorriso de lado a lado, com o pensamento positivo, falou do valor da dívida.

Eleutério, não se intimidou e falou: Zé, eu vou a Itabuna na Caixa Econômica sacar o prêmio e na volta passo aqui para te pagar, foi aí que Zé da Moringa, foi entender o significado do pau no burro.

 

Dono de bar tem que tomar pó

 

O Bico de Ouro era um bar que tinha várias mesas de sinuca disputadas e palco de torneios organizados conforme o calendário e a disponibilidade dos jogadores de várias regiões.

O bar era de propriedade de Fulgêncio, que se destacava em atender às demandas dos clientes normais e dos jogadores que se revezavam entre goles de bebidas e apostas, de acordo com as posses financeiras. Ali, fiado era um nome ofensivo, e muito poucos tinham acesso ao crédito.

Certo dia, o bar cheio, mesas lotadas, eis que chega Algenário, um cliente indesejado no ambiente. Fulgêncio torce os lábios, demonstrando preocupação com recém-chegado.

Algenário, um bom falastrão, foi logo pegando o taco e desafiou um dos jogadores para uma partida, sendo que aposta não seria em dinheiro e sim em cervejas.

Fulgêncio, com aparência circunspecta, chamou Algenário no canto e indagou:

- Você tem dinheiro para bancar as despesas se você perder? –.

Algenário respondeu:

- Não se preocupe, meu amigo, afinal, dono de bar tem que tomar é pó! -.

Como não houve impedimento, começou o jogo e Algenário passa a ganhar, ganhar e ganhar, Fulgêncio se alegrou, pois sabia do perigo que corria se Algenário, perdesse.

O oponente num determinado momento começou a virar o jogo, ganhando cinco partidas em seguida, dito e feito.

Algenário desafiou o oponente com aquela proposta que todos os donos de bar têm medo, Algenário, então falou:

- Vamos para o encosto (modalidade que não se desce mais cervejas e sim disputa-se as que já estão em jogo) -.

Como Fulgêncio estava prevendo, Algenário perdeu todas as partidas e a dolorosa, como já se sabe, ficou para o perdedor.

Algenário, todo cabisbaixo falou pra Fulgêncio:

- Dependura que depois eu pago -.

Fulgêncio repreendeu Algenário:

- Você não disse que tinha o dinheiro para pagar a conta, caso perdesse? -.

Nisso Algenário repetiu:

- Dono de bar tem que tomar é pó de sinuque -.

E saiu apressado antes da reação de Fulgêncio.

 

Troca de notas

 

Num domingo ensolarado Policarpo, ocupou uma mesa no bar do Zequinha e começou a tomas umas cervejas. Antes tomou a guia para dar início aos trabalhos.

Policarpo tinha crédito, mas era aquele cliente taxado de descansado, na hora de pagar as contas.

Depois de uma grande quantidade de cerveja, chega um amigo de Zequinha, morador de outra localidade e que estava em visita aos familiares.

Policarpo também conhecido dos chegantes, os convidou para sentarem à mesma mesa.

Bate-papos, lembranças de outros tempos e assim as cervejas eram despachadas quase uma atrás da outra, tira-gostos, e refrigerantes para a criançada.

Chegando a hora, o visitante pede para que Zequinha some toda a conta. Com um sorriso largo, Zequinha apresentou a conta e de pronto o visitante tirou a carteira contou o valor e quando foi entregar a Zequinha, Policarpo levantou e disse para Zequinha, aqui visitante não paga, tudo é meu.

Zequinha viu o chão se abrir e a feição turvou-se como se perguntasse a si mesmo, qual o seu pecado, pois já contava com o dinheiro em suas mãos e Policarpo se atreve a tomar tal atitude.

Os visitantes foram embora e Zequinha ficou a ver navios.

Na segunda-feira Zequinha foi se lamentar o ocorrido com um colega de bar, o colega do bar não se conteve, e rindo propôs a Zequinha se ele queria trocar a nota pelas que ele colecionava de Policarpo, já amareladas pelo tempo.

 

Devolva pelo menos as garrafas

 

Dondinho resolveu festejar o aniversário de 15 anos de sua filha. Sem dinheiro, recorreu ao Bar de Bilé. Como era um bom pagador, Bilé, abriu o crédito e forneceu dois engradados de Brahma litro e refrigerantes.

Passado o aniversário, Dondinho muda de percurso e já não passava em frente ao Bar de Bilé.

Certo dia, por descuido Dondinho passa em frente ao bar, no que foi indagado pela falta de pagamento da conta. Desculpas à parte, promessas do tal dia eu pago.

E nada de Dondinho pagar a já amarelada conta. Um dia Bilé encontra o devedor de frente e fez um apelo:

Dondinho, pelo menos devolva as garrafas, pois o liquido eu já dei como perdido.

 

O Italiano e o muro do cais

 

Antigamente o cais do Rio Almada só contemplava a rua Siqueira Campos (hoje Jacob Olímpio de Santana) e a praça Régis Pacheco (hoje dividida em Duas, Adonias Filho e Régis Pacheco).

Italiano era um pacato cidadão, que diariamente descia do Alto do Rio Branco, para degustar umas Brahmas no Bar de Passarinho. Após algumas garrafas, ele um pouco alterado, tinha como norte o Cais que findava em direção ao armazém de compras de cacau situado no itinerário. Ao findar o cais ele já sabia que estava perto de casa e só era atravessar a rua.

Quando o cais foi concluído, Italiano estava em viagem, e ao retornar, na manhã seguinte ele volta à velha rotina de ir ao Bar de Passarinho. Na volta ele coloca a mão direita em cima do cais e fez o percurso. Não notando que o cais tinha sido concluído, passou do ponto e seguiu em frente. Ao chegar na rua do meio, foi alertado por um conhecido que indagou:

- Italiano, você está indo pra onde? -.

Pronta resposta:

- Tô indo pra casa! -.

- Oxente seu Italiano a sua casa fica lá pra baixo, depois da praça.

 

O meu é meu, o seu é seu

 

Coronel era proprietário de um Bar e Restaurante nas proximidades da Avenida Itabuna. Sua esposa, Dona Leolina, preparava um quibe sem igual, que era disputado pelos clientes que também se deliciavam com a culinária servidas diariamente.

Para orgulho de Coronel, a sua filha concluiu o curso de magistério em primeiro lugar e ele não poupou recursos para que sua filha fosse destaque no dia da colação de grau.

Para registrar a cerimônia única, Coronel contratou o fotografo Zé Lente, para registrar todos os momentos da cerimônia.

No dia da entrega do álbum de fotos, Zé Lente, todo fagueiro e sabedor da qualidade das fotos tiradas por ele com zelo e competência, solicitou uma porção de quibes, acompanhando do também delicioso caldo de cana.

Ao terminar o deguste, Zé Lente, que já tinha entregado as fotos a Coronel, que ficou muito contente, propôs um encontro de contas, o valor da fotografia e a dedução do valor do lanche feito.

Coronel mirou Zé Lente de cima a baixo e respondeu, aqui não tem nada disso não, você trate de pagar as despesas com o lanche que eu pago o valor combinado pelo seu trabalho.

Zé Lente então abaixou a cabeça, e pensativo falou pra si mesmo o que é que faria agora, pois não teria um tostão no bolso.

 

Léo, o botafoguense

 

Léo era o proprietário do Bar Botafogo, próximo à Estação Ferroviária, e torcedor fanático sempre era assediado pelos torcedores de outros clubes, que o azucrinava quando o Botafogo sofria uma derrota.

Numa época que Perivaldo, era lateral do Botafogo, a convite de Gerson Sodré e muitos outros vieram passar uns dias em Itabuna. Aproveitaram a excursão e resolveram vir em caravana a Itajuípe.

Durante a visita, e depois de consumirem em diversos bares, vieram visitar o Bar do Botafogo. Tão logo chegaram, com um sorriso de boca a boca, Léo começou a servir a embaixada de craques.

Desce uma, desce outra, Léo coça a cabeça vendo o consumo aumentar, após ele ter franqueado as bebidas na forma de cortesia.

Final da história, os craques e amigos acabaram com o estoque do bar. No dia seguinte Léo teve que recorrer aos amigos para comprar uma nova leva de cervejas e biritas para repor o estoque.

Depois deste episódio, Léo foi embora para São Paulo, onde se tornou um fervoroso torcedor do Corinthians.

 

Pirangi 1 X 0 Americanos

 

Artumiro era represente de compras de cacau, em Pirangi, e possuidor de uma pequena propriedade cacaueira, no município de Ilhéus. E ele tinha tino para convencer seus clientes a venderem as suas produções mesmo com os preços do cacau em baixa.

Certa época apareceu em Pirangi uns investidores americanos interessados em adquirir uma propriedade agrícola. Sabendo do fato, Artumiro procurou os mesmos, dizendo que a propriedade dele estava a venda por um preço especial.

Agendada a visita à propriedade, Artumiro leva os americanos para a propriedade de um amigo, relatando que aquela era a fazenda à venda, e que estava em plena colheita, motivo suficiente para os americanos se entusiasmarem. Imediatamente selaram a escritura de compra e venda no Tabelionato local, dando posse aos novos proprietários.

Dias depois ao serem levado para a fazenda original, viram que tinham sido vítimas de um golpe de mestre.

 

A vingança do primo pobre

 

Sariguê, o primo pobre de uma família tradicional em Pirangi, levava os seus dias entre umas e outras doses da marvarda cana. Terror dos gerentes de bancos, uma vez que ele descobria algum ato de deslizes na função, procurava o mesmo contando que tinha conhecimento do ocorrido e solicitava facilitações bancárias em favor próprio.

Pavão, era o primo rico que morava em Guaracy, onde administrava uma firma de compra de cacau e ostentava uma fortuna invisível, que na realidade não tinha e através de financiamento, adquiriu um carro último modelo.

Quando ia a Itajuípe, Pavão sempre assediava Sariguê, repreendendo pela vida deslavada que o mesmo levava sem pensar no futuro.

Num belo dia já saturado pelas críticas do Primo Rico, descobriu que as prestações do carro estavam em atraso e sujeito à retenção por parte das autoridades.

Dito e feito, Sariguê, sem rogação, ligou para a Polícia Rodoviária informando a pendência do financiamento.

Ao transitar na jurisdição da polícia, o carro foi parado e apreendido pelas diligentes autoridades para tristeza do primo rico.

Dias depois o primo rico veio a Pirangi, quando encontrou o primo pobre, sem tecer críticas, o que o primo pobre sarcasticamente perguntou: “Cadê o carro primo”, e deu aquela risadinha de canto de boca.

 

O dia que o padre quase morreu

 

Frei Malaquias, de origem portuguesa e pároco na cidade de Ipiranga, às vezes vinha a freguesia de Pirangi, para substituir o padre Pacifico.

Naqueles tempos idos ser sacristão era uma benção, já que na paróquia existia um pomar com frutas variadas, um campo de futebol, leituras de clássicos, catequização, além de viagens às praias de Ilhéus, que eram brindadas aos sacristães mais comportados.

Frei Malaquias era um brincalhão de primeira ordem e gostavas de distribuir beliscões e gravatas nos sacristães mais afoitos. Entre eles figuravam Cleto e Pastor.

Certo dia Frei Malaquias pegou os dois e fez uma sessão de tortura, no bom sentido, deixando os dois ressabiados e com gosto de vingança.

Na paróquia existia um claustro, onde os padres faziam as suas orações antes da Santa Missa. Ao ver Frei Malaquias em plena meditação, lançaram um mastro de cima para baixo que atingiu o frei, que foi imediatamente para o hospital para ser medicado, o mastro passou de raspão na cabeça do frei o que não teve maiores consequências.

Até hoje Cleto e Pastor, se acusam mutuamente do ocorrido e todas as sextas-feiras rezam uma penitência pelo padre não ter sucumbido ao ato.

 

Elixir cabeça de vossa senhoria

 

Na rua principal do comércio de Pirangi existia a Farmácia de seu Matusalém, de tez preta, atendia a todos com deferência e ética profissional, sendo o chamado médico dos pobres, sendo tratado respeitosamente como doutor.

Naqueles tempos existia o Elixir Cabeça de Nego, que era utilizado como tonificante.

Num certo sábado adentrou na farmácia, Policarpo, um pequeno agricultor, com sua roupa caqui e com um bocapio ao lado.

Doutor Matusalém, como sempre educado, inquiriu a Policarpo o que ele desejava?

Silêncio sepulcral, Policarpo continuou em silêncio, sem revelar qual o remédio queria.

Com experiência no ramo, Doutor Matusalém, pensou que seria um remédio para cura de doença intima, o que foi rechaçado pelo cliente.

De repente, Policarpo chamou Doutor Matusalém, no canto do balcão e falou o nome do produto: “Elixir Cabeça de Vossa Senhoria”.

Doutor Matusalém, não se conteve e rindo, falou para Policarpo, que não precisava ele ter medo de falar o nome do tônico Elixir Cabeça de Negro, só porque a cor dele era preta.

O que policarpo respondeu, eu tive medo que o senhor não gostasse, doutor.

 

Cimento armado

 

Destrói era um excelente pedreiro. Apesar do nome ele era um ás na colocação de azulejos e em acabamentos de construções, por esse motivo muito requisitado.

Destrói tinha por hábito andar armado com um revólver que pouco era notado, já que bem camuflado.

Como criança descobre tudo, um grupo começou a bulir com Destrói, com o seguinte mote: “Um saco de cimento com um revólver em cima é?”. Outro menino, escondido, respondia: “Cimento armado”. Daí Destrói ficou com a pecha de cimento armado para delicia da meninada.

 

Bota aí uma que matou o guarda

 

Antigamente a fiscalização fazendária era feita através de barreiras instaladas na entrada e na saída das cidades.

Em Pirangi não era diferente e existia uma na saída (hoje avenida Itabuna), na saída para Coaraci (à época ainda não existia o trecho da BR 101).

Essas barreiras eram guarnecidas por Guardas Municipais, que entre os seus membros existia um de nome Boanerges.

Boanerges (na Bíblia chamado de Filho do Trovão) tinha baixa estatura e portava um excelente treszoitão, que o deixava um pouco torto ao andar, pelo peso do instrumento de defesa.

Fora do expediente, Boanerges era um voraz bebedor da marvada pinga, o que às vezes o deixava fora do sério, intimidando os transportadores de mercadorias e transeuntes.

Pelo consumo sem limites, Boanerges veio a falecer, o que levou outros beberrões ao chegarem numa bodega pedir: “Bota uma da que matou o guarda Boanerges”.

 

O dia em que Pirangi desencontrou o petróleo

 

Na década de 70, Pirangi não foi diferente dos grandes centros, onde vigaristas pululam enganando a boa-fé dos incautos, como se diz, o inferno está cheio de almas bem intencionadas.

Numa manhã ensolarada apareceu em Pirangi, um pseudo engenheiro da Petrobrás, dizendo que tinha sido enviada pelo americano Walter Link, uma das pessoas mais polêmicas da história da estatal do petróleo. Durante cinco anos, entre 1956 e 1961, ele chefiou a diretoria de exploração da empresa. 

Durante os cinco anos em que, contratado por Juraci Magalhães, primeiro presidente da Petrobrás, comandou a busca do precioso energético, sempre um peso excessivo na frágil balança comercial brasileira, o americano não teria sido leal à empresa que o contratara a peso literalmente de ouro (seu salário era de 100 mil dólares ao ano, em valores do final da década de 50). Na verdade, seria um espião da Standard Oil, a rapace empresa petrolífera dos Rockfeller, desde a década de 1920 interessada nas reservas brasileiras.

Mas voltamos a Pirangi: o pseudo engenheiro alardeou aos quatro cantos da cidade que tinha sido descoberto na região dos Lagos, o precioso óleo cru, o que traria muito progresso a Pirangi.

Como disse entusiasmados homens de boa fé se renderam as falácias do explorador e começaram a distribuir benevolências ao estranho, como hospedagem, alimentação e proventos monetários, que seriam ressarcidos assim que a estatal brasileira enviasse os recursos para tal finalidade.

Altaneiro, ao desfilar pelas vias da cidade, o vigarista deu com as caras com um ex-colega de escola lá das bandas de Castro Alves. Ao ser inquirido das razões de estar em Pirangi, ele com um sorriso nos lábios respondeu: “Anunciei que tinha petróleo nos lagos de Pirangi, e alguns incautos acreditaram”.

Dito e feito no outro dia o vigarista anoiteceu e não amanheceu, deixando os incautos com prejuízos causados pelos sonhos do progresso.

 

Filé x Ossos

 

Major era um fanfarão, dono do “Cai Duro”, um restaurante de gosto popular, cujos pratos principais giravam em torno da famosa Mão de Vaca e ensopados com ossos.

Com a idade um pouco avançada, Major começou a se envolver com meninas mais novas, provendo-as de mimos especiais.

Certo dia Jurupi, um freguês assíduo, chamou Major no canto do balcão e sussurrou: As meninas que o senhor tem tratado de modo especial estão te traindo!

Major, calmamente respondeu ao cliente Dias: “É melhor comer filé acompanhado, do que roer osso sozinho”.

Após uma semana do ocorrido, o Jurupi, abandonou as Balzaquianas e começou a andar arrodeado de Lolitas.

 

Pé de cana!

 

Pirangi sempre foi pródigo em gerar situações políticas risíveis e que atravessa os tempos como se fossem atuais.

Numa campanha política que contou com a presença do candidato a governador e sua comitiva visitaram Pirangi com honras e pompas, sendo recebido efusivamente pelo candidato a prefeito, demais autoridades e pela população ávida por progresso.

No decorrer do comício o candidato a prefeito, ao discursar, foi saudado pelo povão que em coro:

Pé de cana! Pé de cana! Pé de cana!

O candidato a prefeito parou e olhou para o candidato a governador:

- Não ligue não. É um lote de vagabundos pago pela oposição para tentar me desmoralizar – disse.

E virando-se para a plateia:

– Pé de cana é a mãe!

O coro se ampliou:

– Pé de cana! Pé de cana! Pé de cana!

Furioso o candidato a prefeito cerrou os punhos e esticou o dedo:

- Aqui para vocês ô! – e acabou o comício.

E assim, o comício foi encerrado sem o discurso de Pé de cana.

 

O eterno candidato de Pirangi

 

Detentor de inúmeras candidaturas a vereador, Angelito, apelidado de Lito, era vaga certa na composição da chapa proporcional. Orador de primeira hora e pródigo em promessas, Angelito tinha livre trânsito nos corredores da Câmara Municipal e na sede do Poder Executivo.

Mesmo não sendo vereador, Angelito conseguia desentranhar reivindicações de eleitores, angariando assim a promessa do voto do beneficiado e dos familiares.

Numa dessas eleições, além de Angelito, candidatou-se outro pretendente de nome Carmelito. Dito e feito, na apuração o candidato eleito foi Carmelito, para decepção de Angelito.

Por muito tempo os passantes ouviam as queixas de Angelito, que falando sozinho proferia:

– Povo traíra, me trocaram por Carmelito, maldito lito –.

 

Bring Bring

 

Naqueles tempos em que dono de farmácia eram tratados como doutores, Francistônio não foi uma exceção.

Dotado de uma percepção ímpar, acertando na mosca todas as indicações de remédios, gozava da confiança de todos que o procuravam.

Com um movimento acima do normal, um dia Francistônio procura um amigo e diz que estava prestes a falir em função dos fiados. Bom nas vendas, ruim de administração.

De imediato o amigo o indicou outro chegado, considerado um grande cobrador de dívidas.

Pra começar a função, o cobrador inquiriu um grande cacauicultor, detentor da maior dívida individual, travando o seguinte diálogo:

- Seu Onésimo, estou aqui em nome de Francistônio, para lhe cobrar sua dívida de compra de remédios -.

- Dívida eu não tenho com ninguém! - .

- Mas seu Onésimo, aqui estão as notas que comprovam as dívidas contraídas pelo senhor.

Onésimo cerrou a fronte, pediu as notas, conferiu e as devolveu ao cobrador dizendo que amanhã as pagaria.

O cobrador ficou alegre e no dia seguinte procurou Onésimo, que disse:

­- Volte amanhã!

E assim, dia após dia, o cobrador procurava Onésimo e a resposta era a mesma.

Já exausto de cobrar, resolveu tomar uma atitude drástica. Pegou uma pistola e se encaminhou a casa de Onésimo e, de arma em punho, o ameaçou.

- Ou você me paga hoje ou vamos resolver de outra forma -.

Dito e feito, dívidas quitadas.

 

Pra não perder de tudo

 

Pirangi sempre foi pródigo em colecionar espertalhões e Procópio era um deles. Ao ser questionado pelos credores, tinha o hábito de pegar os vales e rasgar antes de liquidar a dívida.

Com essa atitude, que surpreendia os credores, ele simplesmente dizia:

- Bom já rasguei os vales e agora você me diga quanto você quer pra não perder de tudo!

Com os vales rasgados os credores não tinham alternativa a não ser negociar um valor que às vezes o prejuízo chegava à metade da dívida.

 

Jejum de pastéis

Mestre Elísio, um competente mestre-de-obras em Pirangi, era chegado a uma branquinha. Como ele excedia nas doses, de vez em quando ia se consultar com Dr. Monte Santo, que o examinava e passava um remédio milagroso chamado Megabil.

Certo dia Mestre Elísio teve um desarranjo intestinal e correu às pressas para o consultório do Dr. Monte Santo e antes da consulta recorreu três vezes ao banheiro impregnando o ar.

Na hora da consulta, Mestre Elísio foi logo se diagnosticando e falou que na noite anterior tinha comido uns pastéis o que poderia ter causado o incomodo.

Dr. Monte Santo riu, prescreveu o milagroso Megabil e fazendo um sinal com os dedos indicador e polegar demonstrando uma dose da branquinha e falou:

- Mestre Elísio, ver se come menos pasteis -.

 

Desfazendo padrinhos

 

Em época remota chega a Pirangi frei Rosinaldo. Com estilo conservador e seguidor das regras eclesiásticas severas, implantou diversas diretrizes que deveriam serem seguidas ao pé da letra ou os fiéis que as desobedecerem, seriam condenados ao fogo do inferno.

Ao rever os livros de registros batismais com a ajuda de uma beata, ele resolveu excomungar os padrinhos que participavam de uma irmandade contrária aos princípios católicos, deixando os afilhados órfãos de padrinhos, restando tão somente as madrinhas registradas nos batistérios.

Foi uma celeuma de tamanha ordem, gerando impropérios e ameaças de queixas ao bispo diocesano.

Apesar dos reclames, Frei Rosinaldo continuou impassível nos seus métodos de administrar a paróquia, e no dia em que foi transferido para outra cidade viu estampada uma faixa fixada na frente do convento com os seguintes dizeres:

- Já vai tarde -.

 

Bota aí um cacete

 

Florisbelo, era um boêmio que não dispensava umas boas doses não escocês, ao chegar ao bar ele tinha um grito de guerra, já de costume do dono do estabelecimento que alegre o servia, pois Florisbelo não encostava contas.

Apesar de ser boêmio, Florisbelo tinha uma propriedade rural denominada Umburana que produzia para que tivesse uma vida entre a boemia e aos tratos da fazenda.

Com o advento da vassoura de bruxa, Florisbelo, teve que abandonar o uísque e se deleitar com a marvada pinga e viver uma vida regrada, inclusive na alimentação.

Certo dia, ao frequentar o bar preferido, ouviu de um parceiro de pinga a seguinte observação:

- Floris, estais aí a beber uísque falsificado -.

De pronto respondeu:

- É cachaça umburana seu filho de uma puta -.

 

A jabá que virou peixe

 

Secundino era famoso pelo seu gogó pra contar mentiras. Ganhava qualquer concurso de mentirosos que eram promovidos em Pirangi, até dos pescadores, que no julgamento popular são imbatíveis.

Exímio consumidor de jabá, fato e miúdos, após a boia ele saia espalitando os dentes e em alta voz bradava:

- Hoje comi uma moqueca com peixe de primeira linha -.

Nisso, um vizinho pouco manhoso observou e falou pra Secundino:

- Não senti cheiro de peixe não, o meu nariz é bom e pelo cheiro foi jabá frita de novo -.

 

Questão de comércio

 

Em década passadas, era usual a celebração de missas dominicais na fazenda Igrejinha, de propriedade do turco Fagib. O evento era celebrado pelo pároco da Freguesia de Pirangi.

A fazenda Igrejinha tinha muitos hectares e à época sua produção chegava ao patamar de 50 mil arrobas, e sua sede tinha vários pontos de comercio, desde oficinas, bodegas, lojas de tecidos, barbearia, etc...

Com estes espaços comerciais, os trabalhadores rurais da fazenda adquiriam os seus mantimentos e necessidades nos empórios da fazenda. Dito e feito: os trabalhadores gastavam o fruto do suor do trabalho com o próprio Fagib, e como se dizia, o dinheiro saia de um bolso e entrava no outro.

A celebração da Missa e Batizados era concorrida, com fiéis de Pirangi, distrito de Barro Preto e cidades circunvizinhas: uma festa.

Com a chegada de um novo pároco, como se diz no popular, entrou água no evento, pois o pároco observou que as celebrações organizadas por Fagib, tinha apenas a finalidade comercial.

Isso porque após as celebrações os fiéis se tornavam consumidores dos produtos comercializados. Diante deste fato, o pároco cancelou definitivamente as missas dominicais e alertou aos fiéis que quem quisesse participar de missas teriam que frequentar a Igreja Matriz de Pirangi e a Igreja do distrito de Barro Preto, que na época era parte territorial de Pirangi.

O pároco ainda pensou em excomungar Fagib por usar a Santa Missa com pretextos comerciais, mas preferiu perdoar.

 

Duas cores

 

Pacífico era um balconista eficiente, sabia indicar os produtos da loja de variedades, por isso tinha a inteira simpatia dos clientes da Loja Costa do Marfim. Por esta eficiência ele firmou namoro com Maria Pia, cliente assídua da loja, que alguns murmuravam que Maria Pia comprava até o desnecessário para ver Pacífico.

Pirangi já possuía a iluminação pública do comércio e das residências geradas pela Usina Manoel Novaes, situada nas imediações da Estrada de Ferro. A energia era desligada às 22 horas, impreterivelmente, após três apitos.

Numa noite qualquer Pacifico, que morava nas Pitangueiras, veio visitar a quase noiva e futura esposa, Maria Pia. Chegando à residência de dona Maria das Vitórias, a irmã de Maria Pia, as cadeiras já estavam postas na porta do imóvel, para que os anjinhos confabulassem e trocassem beijos furtivos, pois assim eram os namoros de antigamente.

E aí surge Marciano, sobrinho de Maria Pia, que descobriu algo estranho nos sapatos de Pacifico: eles não eram da mesma cor. E então foi um deus nos acuda. Pacífico se prontificou para explicar o incidente, ressaltando que em sua residência a iluminação ainda era de fifó, com pouca luminosidade.

Risos à parte após essa data Pacífico se esmerava em cuidados para não repetir o grosseiro erro. Mas não deu outra: confiando na luz do fifó chegou em casa da amada com as meias de cores diferentes. Para o seu desespero!

 

Ramon Cardiale el cantante mexicano

 

No auge da Jovem Guarda, surgiu em Pirangi a Banda Fogaréu, que tinha como integrantes rapazes cabeludos como exigia a moda da época.

Festa não era festa quando a Banda Fogaréu não se apresentava.

A Fogaréu se apresentava todos os finais de semana no Bahia, único clube de Pirangi, embora também fizesse incursões em cidade circunvizinhas.

Com o passar do tempo, o empresário da banda, conhecido por Canoeiro do Poço do Sabão, teve a ideia de acrescentar mais um personagem para integrar a banda: ele mesmo. Para compor o tipo, se travestiu de mexicano com as indumentárias completa e sugeriu o nome de Ramon Cardiale.

Bem maquiado e escondendo o rosto com um sombreiro, ele começou a se apresentar em cidades próximas, e conseguiu faz enorme sucesso.

No entanto, numa festa realizada na Cabana das Taiobas, depois das apresentações de praxe, eis que ele aparece no palco e solenemente iniciou o show com a música “Besame Mucho”. Bilheteria cheia por ser a apresentação de um “el cantante mexicano”, o público delirou.

Entretanto, bastou para que uma das jovens que participava do baile, vaticinasse:

- Que mexicano que nada: é Canoeiro do Poço do Sabão, fantasiado de el cantante mexicano -.

Foi o que bastou, para que o baile terminasse com a carreira internacional de Ramon Cardiale, sem brigas, é claro.

 

Quando os loucos eram normais em Pirangi

 

Além dos loucos de fato, Pirangi tinha entre seus habitantes pessoas desmioladas que circulavam pelas ruas da cidade, aos quais os moradores criavam nomes para identificação.

Basta registrar que alguns tinham ocupações que ajudavam a população, como o Besouro Casacudo, que exercia a profissão de barbeiro. Os que tinham culpa no cartório não se barbeavam com ele, por causa da navalha.

Existiam, também, os que circulavam pela cidade com o intuito de esmolar, como Alebara, Mendengue, Tanta Carne e Eu Sem Dente, Tumida, Cu, Sobe e Não Desce dentre muitos outros.

Numa determinada gestão municipal foi criada a Guarda Municipal e para surpresa de todos Alebara foi aprovado para exercer a função na ronda noturna ostensiva pelas ruas da cidade,

Numa dessas noites, Alebara, não acostumado a perder a hora do sono, cochilou no peitoril de uma janela residencial com o apito na boca, assim que ele ressonava emitia o silvo do apito. Acreditando em alguma ação de marginais, os companheiros correram para o local e viu Alebara em sono profundo. Devagar, se aproximaram e tiraram a arma e voltaram para o comando, relatando o fato ao comandante.

Como de praxe, a tropa era passada em revista pela manhã, e olha que chega Alebara com as roupas rasgadas e contou que durante a noite entrou em luta corporal com um marginal e o mesmo evadiu-se levando a arma.

Não deu outra, Alebara, foi destituído da função a bem da tranquilidade dos moradores, que pagavam uma taxa para ter segurança.

 

A prisão de Cu

 

Cu, era um pária na comunidade de Pirangi, perambulava pelas ruas, sem molestar ninguém, dormindo ao relento na antiga Estação Ferroviária, assediava as pessoas como pedinte, mas tinha as casas certas para pedir um prato de comida.

Saindo da rotina, Cu começou a pedir dinheiro, cachaça e cigarros aos passantes e clientes das bodegas, principalmente na Rua do Cacau.

O consumo de bebidas fez com que ele ficasse agressivo, não em brigas, mas para proferir palavrões dirigidos àqueles que negavam atendê-lo, tornando uma rotina.

Certo dia ao desacatar uma senhora, Cu deu azar, pois tinha um policial perto e lhe deu voz de prisão por desacato a uma senhora que negou prover o pária.

Conduzido à detenção, Cu ficou esperando a presença do delegado para dar solução ao problema causado em plena via pública.

Ao chegar à delegacia o delegado Alberione, mandou recolher o meliante em uma das celas da detenção local.

Ao saber da prisão, Maria, uma mulher do baixo meretrício, se arrumou e foi à delegacia para dialogar com Alberione. Ao se dirigir a autoridade ela fez o pedido:

- Seu delegado, solte Cu -.

Foi o que bastou para que Alberione colocasse as mãos na cintura e vaticinou:

- Me respeite, eu, uma autoridade, e a senhora me faz esta proposta dessa!

A senhoria toda humilde, com o semblante vermelho, respondeu:

- Não é o que o senhor está pensando, é Cu, o doido que está aí detido -.

 

A barata de sacristia

 

Professora Lara era uma franciscana de primeira estirpe. Caleb, um beato nato, farejava momentos de fraqueza dos irmãos mais afoitos na demonstração de fé, principalmente quando era contestado na sua crença infinita em São Francisco ou ao Apostolado da Oração.

Após ter passado por uma reprimenda da professora Lara, ouviu calado, e no pensamento ele resmungou que um dia ela o pagaria.

Dito e feito. Certo dia estava professora entre um grupo de irmãs, se vangloriando do quanto era católica desde o nascimento.

Neste momento Caleb ia passando e ouvindo o comentário disparou:

- Também pudera a senhora é barata de sacristia e agora andando com essa bengala, que parece o cajado de Moisés. Cuidado para não tropeçar na subida para o céu -.

Assim, a professora desceu do salto, com todos os impropérios e adjetivos do maligno.

 

Doido é doido mesmo

 

Em tempos pretéritos a Clínica São Judas Tadeu, em Itabuna, era a salvaguarda de quem tinha parentes com sintomas de psicose.

O delegado Abreu, em Pirangi, tinha um filho de nome Gerenaldo, que de vez em quando surtava e era levado para a Clínica São Judas Tadeu. Em uma dessas internações, Abreu levou o seu filho Gerenaldo para ser internado e tomar os medicamentos de praxe.

Ao chegar à clínica, Gerenaldo, aparentando calma, sentou-se num banco e puxou um cigarrinho. Enquanto isso Abreu ficava andando de um lado para o outro.

Eis que chegam dois enfermeiros com uma camisa de força e perguntou a Gerenaldo, quem era o alterado. Calmamente ele aponta para o seu pai e diz: “É ele”!

Até resolver o mal-entendido, o delegado Abreu passou muitos perrengues.

 

Sobe e não desce

 

Porfirio sofria de ausência de sanidade e perambulava pelas ruas de Pirangi, independente do tempo.

Entre idas sem volta, Porfirio despertou a curiosidade dos moradores, que só o via subir e não descia em suas andanças diárias.

Certo dia, Marciano, um curioso sem limites, decidiu decifrar o mistério, acompanhando Porfirio em sua peregrinação, que se iniciava na Rua da Areia e se prolongava até depois dos Três Paus.

Foi aí que Marciano, descobriu o porquê de Porfirio subir e não descer. Ao descobrir o périplo, constatou que O Sobe e não desce, simplesmente fazia a caminhada até os Três Paus, atravessando a sede da Fazenda Guiné Bissau, saindo na estrada Itajuipe-Coaraci, entrando pela antiga Avenida Joana Angélica, em direção ao Matadouro Municipal, atravessava o Rio Almada e iniciava de novo o percurso.

 

Bebeu a umidade

Zezé Fotografo era um profissional de primeira linha na arte de tirar e revelar fotografias e gozava de bom conceito na sociedade, que o convocava para qualquer evento social, político e religioso.

Chegado a uma branquinha, às vezes os eventos tinham que ser interrompidos até a sua chegada para registrar com maestria as cerimonias.

Certa feita Zezé foi forçado a uma abstinência de bebidas de qualquer natureza, e assim só restou a ele frequentar as missas na Igreja Matriz, e numa dessas celebrações, o padre, na hora da comunhão, empunhou o cálice e sorveu em goles o vinho sagrado. Zezé, ali contrito e com os olhos marejados. A cada gole que o padre sorvia, ele lambia os beiços. Junto dele estava Analva, uma beata de primeira linha, que sussurrou no ouvido de outra beata, dizendo olha aí, Zezé bebeu a umidade a seco.

 

Custódio das casas

 

Custódio era um dos maiores proprietários de imóveis urbanos em Pirangi. Diariamente, desde o começo da manhã já estava nas portas dos inquilinos para receber o aluguel devido.

Quando ele encontrava os inquilinos dizia uma frase curta: “Quem não tem tu é tu mesmo”, numa referência a quem não tem casa e fica na dependência do aluguel.

Miranda era um dos inquilinos que dava mais trabalho no dia do pagamento, quando ele percebia a aproximação de Custódio, se escondia embaixo da mesa de corte e mudava o tom da voz, respondendo: - Seu Miranda viajou -.

Já acostumado, o senhorio ia embora.

Num belo dia Miranda deita embaixo da mesa de corte, mas deixa os pés às vistas, e como sempre Custódio, bradou:

- Quem não tem tu é tu mesmo, vim receber o aluguel -.

Miranda, como já de costume responde:

- Miranda viajou, foi pra Tabocas, com um palito no canto da boca -.

E Custódio rebate:

- Pois é, o coitado foi pra Tabocas, cotó, e deixou os pés em embaixo da mesa de corte -.

E saiu calmamente balançando a cabeça.

 

Bota pra F*

 

Professora Anísia era diretora de uma escola particular e dirigia o estabelecimento de ensino com pulso forte, levando os alunos a ler a cartilha com regras de caserna.

Como em todas as regras rígidas, existem os rebeldes que tendem a burlar a disciplina as vezes farisaicas.

Um dos rebeldes sem causa era o aluno D’El-Rei, que de nobreza não tinha nada.

Em um dos episódios registrou o Desfile de 7 de setembro, no qual a Escola Deus e Pátria, se esmerava desde a banda marcial, até o ultimo aluno que desfilava (como dizia na gíria estudantil, os da rabada). A escola disputava com o Colégio Centenário, e no esquentar dos instrumentos, Anísia com uma das professoras passaram em revista os alunos, quando D’El-Rei, ao ver a revista da banda, bradou: “Bota pra f*”, no que Anisia, sem perceber o que era o f*, respondeu é isso aí meu filho, quando foi descobrir o significado, o som da banda já tinha abafado qualquer resposta de Anisia.

 

O encalhe de Fernet

 

Fael de Pirangi era proprietário de um estabelecimento de secos & molhados, com uma ampla clientela. Fael primava pela qualidade dos produtos oferecidos aos seus clientes.

Certa feita um representante comercial do ramo de bebidas, em sua primeira viagem a Pirangi, visitou a Casa Senhor do Bonfim, nome dado ao estabelecimento, em homenagem ao santo que Fael era devoto com medalhinha no peito e tudo.

O representante se apresentou, abriu a pasta e desfiou o catalogo com as bebidas disponíveis para abastecer o estoque com produtos de primeira qualidade e disse que poucos estabelecimentos da Bahia, tinham acesso para oferecer a clientela.

Na época as bebidas rotuladas de quentes que agradava o paladar dos aficionados tinham saídas fácil, entre elas a denominada Fernet, de origem italiana. Desde 1865 era feita de álcool de diversas raízes e especiarias e que tinham o poder curativo nos sintomas digestivos.

Ao finalizar o pedido, o vendedor, por malicia, aumentou a quantidade de caixas de Fernet, produto este que ele não tinha conseguido vender a outros comerciantes que faziam parte de sua rota.

Ao receber o pedido, Fael confere os produtos e nota a quantidade exagerada de Fernet. Naquela época a comunicação com os fabricantes era precária e o telégrafo era o instrumento de comunicação mais rápido. Telegrama remetido, os dias passam e nada de resposta. Resignado, Fael coça a cabeça com o lápis e não diz mais nada.

Com o Fernet, encalhado por muitos anos e Fael já mudando de ramo de secos & molhados para materiais de construção, encosta num canto as caixas de Fernet. Para sua felicidade, uns filhos de Pirangi radicados em São Paulo, vieram de férias para rever os parentes e a terra natal.

Ao visitar o estabelecimento de Fael, deparam com a preciosidade das garrafas de Fernet, há muito deixado de ser fabricado e não contaram conversa: Perguntaram a Fael quantas caixas tinham disponíveis, quase o matando do coração. E ele balbucia 50, no que os filhos de Pirangi, arremataram todo o lote.

Ao receber o pagamento, Fael, com os olhos lacrimejantes, falou: “Só vou cobrar 45 caixas, as 5 são de bonificação”.

Assim que se viu livre do encalhe, se dirigiu a capital e mandou rezar uma missa de Ação de Graças, por ter se livrado do encalhe de Fernet.

 

Pirangi 1 X 0 Americanos

 

Artumiro era represente de compras de cacau, em Pirangi e possuidor de uma pequena propriedade cacaueira, no município de Ilhéus. Tinha o tino para convencer os seus clientes a venderem as suas produções, mesmo com os preços do cacau em baixa.

Certa época apareceu em Pirangi uns investidores americanos interessados em adquirir uma propriedade agrícola. Sabendo do fato, Artumiro procura os mesmos, dizendo que a propriedade dele estava a venda por um preço especial.

Agendada a visita à propriedade, Artumiro levou os americanos para uma propriedade de um amigo, relatando que aquela era a propriedade à venda, que estava em plena colheita, motivo esse que os americanos se entusiasmaram, selando no Tabelionato local, a escritura de compra e venda, dando posse aos novos proprietários.

Dias depois ao ser levado para a fazenda original, viram que tinham sido vítimas de um golpe de mestre.

 

Avalistas de bin

 

Nos tempos áureos do cacau diversas personalidades Piragiense, esbanjavam prestígios e confiança.

O que seria dos abastados se não houvesse os apaniguados.

Vamos aos fatos: Pirangi, contava com diversas agências bancárias oficiais e comerciais e os gerentes quando passavam na rua eram apontados como os donos dos bancos e eram considerados como um bom partido para as moças sonhadoras, por um bom casamento.

Albenzo, decano comerciante, se dirigiu a uma agência bancária e falou as suas pretensões em contrair um empréstimo a longo prazo, o gerente

Vasconcelos, ouviu atentamente Albenzo e inquiriu, se ele tinha um avalista? Albenzo, cabisbaixo confessou que não, de logo o gerente, apontou três nomes que seriam aceitos para selar o financiamento, surpreso o comerciante pegou a lista e constatou que os três apontados confessavam estimas para com ele, o gerente com o ar confiante, disse que só bastava um dos três avalizar, que o empréstimo seria concretizado.

Preenchida a nota promissória, o comerciante foi ao primeiro da lista e solicitou o aval, de pronto o avalista sacou a caneta e endossou a promissória, para satisfação do amigo que se encontrava necessitando de um aporte, voltando ao banco o comerciante apresentou a promissória avalizada e para a sua surpresa, o mesmo foi rejeitado, depois ficou-se sabendo que o gerente já combinado com os possíveis avalista, tinha esse comportamento como prática para não negar o empréstimo de primeira.

 

A troika de testemunhas

 

Ao escriturar a compra ou venda de um imóvel era exigido a assinatura de duas testemunhas em cada transação para selar o negócio.

Muitos compradores escolhiam pessoas de sua confiança para exercer o múnus, em virtude de querer discrição, ou seja, que a sua vida não fosse exposta de modo aleatório e todo mundo ficasse sabendo da aquisição.

Asclepiades, tabelião oficial atento a esses detalhes e nem sempre as testemunhas escolhidas estivessem disponíveis, optava por vizinhos ao cartório, entre eles Nicodemos, proprietário de uma barraquinha de legumes, Carolino, que tinha como profissão, fotografo, apelidado popularmente de lambe-lambe,

Venturino, que era agricultor e que estavam disponíveis a qualquer momento para sacramentar o documento oficial.

Numa inspeção casual, um oficial vindo da Bahia, ao verificar o livro constatou as constâncias das três testemunhas de plantão, pensando que haveria algum deslizes nas transações, ao qual Asclepiades, com um sorriso nos lábios, pois tinha terminado de lavrar uma escritura, ofereceu ao oficial que fizesse as honras de ser testemunhas o que prontamente foi aceito, a segunda testemunha foi Venturino, sacramentado o documento com as assinaturas dos compradores, vendedores e testemunhas, Asclepiades, falou para o oficial e disse: tá vendo, nem sempre são os mesmos, hoje tivemos a honra de ter uma testemunha diferente, risos a parte.

 

Maura, uma heroína singular

 

Nas lutas proeminentes pela emancipação de Itajuípe das garras de Ilhéus, uma mulher teve papel importante na Campanha Emancipadora, que se chamava Maura Olimpia dos Santos.

Maura, para encampar a luta pela emancipação, criou o Comitê Feminino pela Emancipação Política de Itajuípe.

Como a “Comissão Central” pró emancipação, fraquejava. Em uma histórica reunião, a professora Maura, toma uma corajosa decisão, quando Humberto Badaró justificava as dificuldades para enfrentar o grupo Ilheense, o peso político do Presidente da Assembleia Legislativa, e não ter dinheiro para a Comissão ir à cidade de Salvador.

Então na oportunidade Maura, desafia a Comissão: “Se os senhores desistirem, as mulheres continuarão a luta e emendou Humberto, nos dê a Bandeira do Brasil, e nós daremos o dinheiro necessário para custear as despesas!”

Com este ato da professora Maura o “Comitê Feminino” foi as ruas, com a bandeira desfraldada pelas mãos das heroínas, conseguindo contribuições financeiras.

Louvores foram dados ao “Comitê Feminino”! Escrevendo assim com bravura, seu nome nas páginas da história de Itajuípe, sob a batuta da professora Maria Olimpia dos Santos. Artigo escrito com dados histórico de Itajuípe e do livro Retrospectivo, de autoria de Wanderlito Barbosa.

N.R.: Numa luta que predominou os machismos, uma vez que só é citado nome de homens, a professora Maura e as integrantes do “Comitê Feminino” fizeram a diferença.

 

Marcone Amaral agora é Heptacampeão

Com o seu afastamento da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALBA), Marcone Amaral (PSD), pode pedir músicas no Fantástico, pelas seguintes posições de “Ex”.

Ex–Jogador;

Ex-Prefeito de Itajuípe;

Ex-Prefeito com três Contas Rejeitadas pelo TCMBa;

Ex-Presidente da AMURC;

Ex-Presidente do Hospital de Base, em Itabuna;

Ex-Candidato à Presidência do Vitória e agora,

Ex–Deputado Estadual.

Segundo Mãe Bezinha, do Suvaco das Cobras, está prevendo que, Marcone Amaral no ano de 2026, será “Ex” de qualquer coisa.

Estou caduco

 

Estou caduco, engraçado acordo e vou escovar os dentes, fazer as Necessidades, enfim tomar banho, ainda me enxugo, visto-me, vou para o Fogão e preparo o desjejum, não esquecendo de escutar e rezar no Programa "Minha Fé", com o Padre Avelino e equipe, sorvendo orações e o Café matinal.

Medito se devo sair, o vício da internet não deixa por algumas horas, Ingresso na vida mundana montado num alazão chamado coragens revejo as paisagens, lugares antes laborais, companheiros de caminhadas de todas as Virtudes.

Os céus às vezes cinzentos predominam o azul da Celeste de 1956, parecemos derrotados, pois é, subo a colina para ver Patolino, observo às partidas e Chegadas da nova estação, pessoas passageiras ou lunáticas nativas, embarcam e desembarcam num frenesi sem par.

Beijo o Rio Almada, entre o antigo cemitério, antro de jagunços que até hoje purgam os pecados dos velhos coronéis.

Antevejo a Ponte Inácio Tosta “hoje do Cinquentenário", as vezes muros inglórios da nossa dita urbi, governada cidade que retrata a Guerra do Fim do Mundo, de um tal Ellen G. White.

Caminho para o empata viagem, do livro de Seu Agapeh, da Rui Barbosa, Beberico no Jacare, Good Bar, Soraia, Barraca São José, Vando e por último Trapaiout, antigo infante das tropas de Napoleão, que nunca viu Warteloo e Nem tão pouco degustou os brioches de Maria Antonieta, sem esquecer de Passar por Célia de Josué, aquele que abaixou as galinhas e por último Pipo Raimundinha.

Percorro a Ponte dos suspiros não, a de Cassandra Crossing e nem tão pouco O trem de Aprill Mornings, lutando ao lado de Charles Bronson.

Nado na Baixinha do Amor, para reencontrar o caduco que eu deixei em Casa.

Tenho memória sim, aprimorada, comendo no restaurante Caiduro e sentindo Saudade daquela cachaça, daquele cachaceiro da Água Sumida, Vilxem esqueci o nome dele, agora sim estou caduco, vou tomar mais uma pra agitar A caduquice que não me quer.


Autor: Cláudio Luz/Luz do Almada Souza
Todos os direitos reservados: Lei nº. 9.610/1998
apoesiadeclaudioluz.blogspot.com

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