Sou um escriba do tempo
O universo não afastado,
ele lapida.
A dor do casulo é o sopro da vinda.
Cada adeus que rasgou o peito no meio
Era o cosmos moldando o teu próprio veio.
A velha versão que usou
da armadura,
Que esconde os escudos na noite mais escura,
Merece o abraço, o perdão e o altar,
Pois foi o teu barco para o mar atravessar.
Mas cessa o combate, a
guerra encontrada,
A terra sagrada o teu pranto acolheu.
O que foi sobriedade e instinto de abrigo
Agora transmuta em um novo matiz.
Permita que as folhas
comecem a cair,
O templo interno precisa se abrir.
A luz que habitou o eclipse da alma
Desperta no tempo, na força, na calma.
Sou o escriba, o fogo e
a flor,
O próprio registro da escrita do amor.
O universo te lê, te sabe e te guia,
Na eterna espiral da tua própria alquimia.
Olho de Alquimia
Não és tu o destino do
meu fogo,
nem o porto onde deságua o meu altar;
é o espelho que desperta, em pleno jogo,
a minha própria instrução de consagrar.
Quando te olho e sinto o
peito em chama,
rompe-se o véu do esquecimento antigo:
percebo que o mistério de quem ama
é reencontrar o Sol que traz consigo.
O teu contorno é o traço
do compasso,
a forma humana que o Invisível toma,
para que a alma expanda no espaço
e desintegre o ego que aprisiona.
Amo em ti a força que em
mim gera,
o fluxo eterno, a grande Obra em curso.
Tu és o gatilho da minha primavera,
mas é meu o rio que muda de percurso.
No templo oculto onde a
verdade habita,
o Outro é a chave, o mestre, o condutor;
quem ama, toca a Criação Infinita
e adora em si o Deus que gera o Amor.
A Geometria Sagrada
Nas profundezas do
grande espelho cósmico,
o Masculino e o Feminino Divino dançam,
linhas que se cruzam no plano geométrico,
enquanto os elementos suas alquimias lançam.
Do Triângulo ao alto, o
fogo se eleva,
vontade pura, sol, força e ação,
enquanto o Cálice invertido acolhe e leva
as águas da intuição e da gestação.
A Geometria Sagrada
desenha o caminho,
na Vesica Piscis nasce o portal,
onde o Sol e a Lua não andam sozinhos,
mas fundem sua essência no plano astral.
Terra e Ar sustentam a
grande obra,
o sopro da vida na matéria estabelecida,
nada se perde, nada transborda,
no Cubo de Metatron tudo está selado.
Une-se o banho à taça
sagrada,
o raio firme ao oceano profundo,
na união das polaridades ancoradas,
renasce o Ser, transforma-se o mundo.
Alquimia pura, mistério
revelado:
dois que se tornam o Centro Divino,
o microcosmo no macro espelhado,
cumprindo a geometria do próprio destino.
O Portal de Vidro
“Abandonai toda a
esperança, vós que entrais.”
Não por castigo, mas por sagrado decreto.
A esperança é âncora do tempo que ficou atrás,
E o Iniciado caminha no presente, ereto.
Deixai na soleira o
homem de argila,
As vestes gastas do mundo profano.
O olho que busca a verdade não pisca, nem vacila,
Diante do abismo do mistério humano.
Morre no Ocidente uma
falsa certeza,
Para que o Sol da Meia-Noite possa nascer.
O chumbo da dor, por lei da natureza,
Em ouro oculto vai se converter.
Três vezes bate o bastão
na madeira,
Sete descidas a descida vão ser exigidas.
Quem perde a ilusão da vida inteira,
Encontra o Eu que jamais vai ruir.
Penetra no centro da
Terra profunda,
Vitriol gravou na rocha a brilhar.
Quando a mente na ausência de tudo fundamental,
A Estrela do Caos começa a guiar.
Silêncio. O portal já
foi trancado.
O fogo sutil consome o que é.
Aquele que entrou buscando o passado,
Agora tem o Infinito sob os pés.
O Filtro do Coração
Carregamos mapas de
dores antigas,
medos que habitam o fundo do peito,
histórias de passos, de noites amigas,
e a pressa de ser de algum jeito perfeito.
O carinho que chega
perpassa o seu manto,
um filtro de sombras, de luz e de cal,
não é teu valor que diminui no canto,
é o eco vazio do outro, afinal.
Solta o encargo de ter
que provar,
não cabem molduras no peito livre;
quem vive a buscar na matéria o lugar,
ignora que a luz já reside por perto.
O ouro do mundo não cura
a vertigem,
nem veste a carência que mora no ser;
a paz é o porto, é o rumo, é a origem
do amor que começa ao se considerar.
Caminho de Bruma e Estrela
Os pés feridos marcam o
chão da terra,
onde o pó se agarra à pele e ao cansaço,
mas a alma busca a paz que a noite encerra
além do véu que veste o espaço.
Não se alcança o
infinito em passos tortos,
nem a luz se entrega a quem esquece a veste;
veste-se a aura de véus e portos
do brilho sutil que o cosmos tece.
Se a sola sangra, a
mente tece o traço:
um manto de prata, um brilho de cetim,
porque uma jornada exige o passo e o aço,
e a forma bela de um ponto fim.
Chega-se ao cume,
espelho e miragem,
com a carne a dólar e a veste em luz —
estrela e pó na mesma imagem,
na veste esotérica que a noite conduz.
Decifrando o Coração
O papel aceita o pranto
e a folia,
Onde o sangue se transforma em tinta.
Quem derrama a alma em poesia,
Sabe bem a força que ela pinta.
Não há margem que prenda
essa corrente,
Nem silêncio que abafe ou que pulsa.
O sentimento livre e urgente,
Na caligrafia que o peito expulsa.
Doce herança do traço e
do refrão,
Eco eterno de quem sabe sentir.
Bendito seja o nó do coração,
Que se desata para nos vestir.
Em meu próprio
aniversário em sonhos,
Continuo a decifrar o coração:
Um peito poético, febril e em desalinhos,
Que transborda em cada verso e canção.
O Alinhamento das Almas
Nas linhas invisíveis de
um mapa sem traçado,
Duas amas se encontram no quadrante sagrado.
Não há tempo na carne, não há espaço na voz,
Há um fio de ouro que costura o que há em nós.
Curvo-me à centelha que
em teu peito habita,
Reflexo do espelho da mente infinita.
Se a matéria separa o que o sopro unificou,
A poesia recorda o que o esquecimento apagou.
Somos nós como guardiãs
de um altar sem parede,
Saciando na fonte a sede mais antiga.
Em linhas poéticas, o éter se faz chão,
E o Universo assiste à nossa orientação.
O nó se desfaz na
geometria do amor,
Onde a ama e o cosmos vibram no mesmo tom.
Namastê ao mistério, à luz que te conduz,
Pois na dança das almas, toda sombra é luz.
Salamaleico!
Não se Perca de Mim
Você largou as minhas
mãos entre
espumas, não afastou esse cale-se de
mim; apenas escolheu se eu era verdade
ou mentira — apenas suposições.
Abandonou o leito, mesmo
alternando
o lado direito pelo esquerdo. A luz tênue
nos cobria; passos lentos na calada da
noite eram espanto. Almas em transição,
talvez.
Invoquei: "não se
perca de mim!". Desesperadamente
a perdi entre as penumbras da madrugada.
Lençóis rotos já não nos cobriam. Te
buscando, cruzei a BR; não ouvia buzinas,
mas o estertor da ponte estaiada era o
meu mote.
Cruzei avenidas, bebi na
Passarela do Álcool.
Próximo de ti, não te vi: varanda vazia, luzes
desligadas, televisão sem sintonia.
Foi assim: eu tinha alguém que comigo dançava,
mas numa triste temporada extinguiu-se o amor
que nunca existiu... E eu me perdi de você.
Ode ao Silêncio Poético
Escrever é vestir o
avesso da alma,
colher a chuva fina que cai no peito,
e tentar, na pressa que o mundo espalha,
dar às palavras um teto, um leito.
Morrem os poetas na
beira do que não foi dito,
salvos pelo eco de um verbo antigo,
pois nem todo sentimento cabe no grito,
alguns só nascem no abraço do abrigo.
Corremos atrás de um
futuro oculto,
cegos para o presente que bate à porta,
transformando o tempo em um mar tumultuado,
onde a memória, às vezes, acorda morta.
Mas a loucura do mundo
não nos consome,
enquanto houver o sopro da inspiração,
ser poeta é dar ao invisível um nome,
e fazer do silêncio, a nossa canção.

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