O Perfume da Ausência
A cadeira está vazia, o silêncio é o que restou,
Mas nas frestas da rotina, sinto o que ela deixou.
Ela não cruza mais a porta, nem me chama pelo nome,
Mas o amor que me entregou, o tempo não consome.
Ficou impregnado em mim, na pele e na memória,
Como um capítulo eterno que reconta a nossa história.
Está no jeito que eu olho, no calor do meu abraço,
Na doçura das palavras e na força de cada passo.
Não é uma herança de coisas que o vento desfaz,
É uma costura na alma que me envolve e me dá paz.
Ela se foi no relógio, partiu para além do olhar,
Mas fez morada interna, onde a morte não pode entrar.
Sou o reflexo do afeto que ela soube cultivar,
Se hoje sei sentir tanto, foi por ela me ensinar.
Ela não está mais aqui, o mundo mudou de tom,
Mas sou feito do seu amor, e o que ficou de nós é bom.
O Doido e Meio
Eu busco a calma, o
respeito e a paz,
Vivendo na linha que a vida me traz.
Com toda empatia, evite o conflito,
Guardo a ternura num canto bonito.
Mas se a calmaria virar
desacerto,
E o mundo esquecer que o amor é de perto,
Se um coração louco vier desafiar,
Eu entro na dança pra te acompanhar.
Pois quando a razão
decide ceder,
E o peito transborda num querer sem porquê,
Se um doido achar que domina esse freio,
Eu mostro pra ele que há um doido e meio.
Não é por desordem, não
é por revanche,
É fogo cruzado, é o nosso romance.
Se o mundo achar que o amor é delírio,
A gente se entrega, do caos ao círio.
De mãos dadas nessa
loucura sagrada,
Eu sou sua força na mesma estrada.
Se a vida pedir pra provar quem ama,
Estarei lá com você — do fundo da alma.
Espinhos de Outubro
Mesmo diante do espinho
mais doído,
você floresce, forte e altiva,
com um olhar que abraça o mundo,
tão amorosa, tão compreensiva.
O vento forte tenta o
corpo fraquejar,
mas o teu peito guarda um sol que brilha,
uma certeza mansa de que vai passar,
guiando com doçura a sua trilha.
Não há rasteira que
apague o teu sorriso,
nem tempestade que desfaça o teu querer.
O teu otimismo é o chão que preciso
para ver que o amanhã vai renascer.
A cura já desenha o seu
caminho,
na fé que acolhe e no amor que cura tudo.
Você é a força vestida de carinho,
o milagre mais bonito deste mundo.
Testemunha de Fogo e
Sangue Rosa
O mundo se veste de
algodão e aurora,
num tom que afaga o que a alma chora.
Lá está ela, silhueta firme e mansa,
onde o horizonte inteiro dança.
O fundo é rosa, de um
céu que se derrama,
uma mistura de doçura, carne e chama.
Não há segredos que fiquem no escuro,
quando o dia rompe o mais alto muro.
E lá no topo, soberano e
altivo,
o sol assiste a tudo, quente e vivo.
Ele é o juiz, o cúmplice, a certeza,
que joga luz sobre tamanha beleza.
A mulher caminha, sem
medo do que virá,
pois sabe que o astro-rei a guiará.
Com o sol por testemunha do seu destino,
o fundo rosa vira um altar divino.
O Ciclo da Chuva
O céu está chorando
sobre a cidade fria,
derrama em gotas o peso que o peito trazia.
Mas não há inverno que apague o que é fiel:
eu guardo o amor sob a minha pele,
como um sol escondido atrás do véu.
Na correnteza que corre
pela calçada,
lavo a minha alma de toda mágoa guardada.
É aceito o tempo que limpa e que consome,
enquanto o vento sopra e o dia algum.
Olho o jardim e a
pergunta no vento correm:
que fim levaram todas as flores do apego?
Talvez durmam na terra, onde nada morre,
esperando a primavera trazer o sossego.
Almas Plurais
Somos meros esboços
traçados ao vento,
Filhos de sonhos que o tempo acolheu,
Mistérios que brilham em cada momento,
No traço imperfeito que a vida escreveu.
Somos as luzes que
espantam a escuridão,
Faíscas de alma no imenso vazio,
Que trazem calor à mais fria estação
E guiam os barcos que cruzam o rio.
Em cada tropeço, o
rascunho se altera,
O traço se molda, a moldura se vai,
Mas vive em nós uma eterna primavera,
Que folha não no outono desfaz.
Almas que se reinventam
na dor e no riso,
Mudando de forma, de rumo e de cor,
Buscando no caos o seu próprio paraíso,
Tecendo o amanhã com as linhas do amor.
E nessa transmutação
constante e sutil,
Onde o velho se apaga e o novo se faz,
Mantemos intactos, no fundo do coração,
A essência plural que nos torna imortais.
O Canto dos meus sonhos
Olho para o espelho e
vejo além da superfície,
Há uma força em mim que a própria mente desconhece.
Mesmo que a tempestade lá fora comece,
Minha alma se recusa a aceitar a menos cabo ou tolice.
Eu acredito no poder dos meus sonhos e sigo,
Nenhum vento forte é capaz de apagar a minha chama.
Quem traz a própria luz no peito não se perde na lama,
E faz caminhar o seu maior e mais fiel amigo.
Não nasci para ser
sombra, não sou perdedor,
A queda é só o ensaio para o salto mais bonito.
Meu horizonte é largo, meu limite é o infinito,
E transformo em cicatriz de orgulho a minha dor.
Eu sou muito mais forte
do que posso imaginar,
Um guerreiro silencioso que não teme o caminhar.
Ansiedades
Quantas vezes a ânsia de
provar
O nosso ponto, o certo e o veredito,
Nos faz cegar, e deixa em paz calado
O coração que pede um abrigo, e um grito?
A gentileza não é braço
fraco,
é força calma, é luz no escuro emaranhado;
Uma palavra mansa cura tanto
Que mil razões jamais ocorreram.
Respire antes de abrir a
própria voz,
Escolha a brisa em vez do vendaval.
Pois o que fica na alma, afinal,
Não é quem teve o último argumento...
É quem soube acalentar o sentimento.
Quando o peito oscila na
balança,
Entre a razão fria e a ternura pura,
A ternura vence — e quem acolhe
Jamais perde a verdade que cura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário