O poeta de Pirangi

O poeta de Pirangi
O Poeta de Pirangi

terça-feira, 27 de outubro de 2026

apoesiadeclaudioluzvariadas

Sinto a cruz que eu carrego com leveza

 


Olham de longe o brilho da jornada,
Cobiçam a cruz que trago no peito,
Mas não conhecem a estrada passada,
Nem o peso exato de cada defeito.

 

Querem a colheita, esquecem a lida,
O pranto escondido na escuridão,
Mas esta cruz é a minha própria vida,
E dela não abro mão.

 

Faço do peso o meu estandarte,
No avesso da dor, encontro o sentido,
Cada pequeno detalhe faz parte
De um milagre que foi recebido.

 

O café da manhã, o sol que desponta,
O sopro do vento, o riso sagrado,
Tudo celebra, no fim das contas,
Que o meu fardo foi abençoado.

 

Carrego com orgulho o que me consagra,
Nenhum olhar alheio me desvia,
Pois onde o mundo vê uma chaga,

Eu vejo o motivo da minha alegria.


Bate Coração

 

Quando o coração bate, não é apenas música,
É a alma conversando com outro coração,
Uma prece sutil que ecoa no universo,
Embalada pelo ritmo sagrado da criação.

 

Não preciso moldar o outro à minha imagem,
Nem transformar o mundo que há em você.
O amor não impõe amarras ou caminhos,
Ele apenas aceita o que se pode ser.

 

Preciso apenas escolher, com toda a bravura,
O peito que acolhe o meu próprio pulsar.
E com a coragem que liberta a ternura,
Decidir, livremente, a quem vou amar.

 

Trago o amor como guia e destino,
No compasso que o infinito desenhou.
Duas almas que se encontram no infinito,
Sendo exatamente tudo o que o amor abençoou.

 

A Queda, aprendiz de passarinho

 

As asas que um dia deixei na gaveta,
cobertas de poeira e de esquecimento,
foram o preço de uma promessa secreta:
fazer do teu céu o meu próprio alento.

 

Enquanto eu cuidava do teu horizonte
e guiava o teu voo com zelo e abrigo,
esqueci-me da força que nasce na fonte,
da linha do vento que outrora era comigo.

 

Mas não busco a urgência de um novo capítulo,
nem páginas brancas que o tempo desfaz.
Não quero o rascunho de um outro título,
volto ao começo onde a alma tem paz.

 

É hora de ver o teu voo seguir,
sem pesos, sem culpas, no azul que se expande.
E a mim cabe apenas o dom de sorrir,
reler cada linha da história tão grande.

 

Releio o início, o instante primeiro,
em que abri meus braços por ti, com fervor.

Não preciso de mais do que o livro inteiro
para lembrar como comecei a voar por você.

 

Malévola cristalizada

 

Nas Brumas de Avalon encontrei
Malévola, sob os olhares de Morgana.
O calor corpóreo me seduziu, abracadabra:
Foi o mote para a libertação poética.

 

Entre varinhas mágicas de azevinho, pena
De fênix e inspirações, compus versos
Para Madame Min e Maga Patalójika. No
Monte Vesúvio, vendo a Moeda nº 1 do
Tio Patinhas, não consegui adentrar na Caixa
Forte de Patópolis.

 

Tentei um tour com a vassoura mágica; em
Desequilíbrio caí, não voo mais. Meu padrinho
Merlin apresentou-me Hermione Granger,
A Feiticeira e Sabrina; fiquei lisonjeado,
E adormeci.

 

Sorvi doses de Poções de Polissuco e Amortentia,
Não me embriaguei. Adormeci pensando na poção
Do druida Panoramix, pensei ser Asterix, o gaulês;
Esperei o beijo de Aurora (A Bela Adormecida),
Mas simplesmente nem em sapo ou príncipe me tornei.

 

 O Alambique da Alma

 

No centro exato do peito, onde o fogo sagrado não cessa,
Três chaves de ferro e ouro abrem a porta secreta.
Amar é o sopro divino que o sopro da terra recusa,
Dói a luz que se doa à noite profunda e reclusa.

 

Mas a dor é o mercúrio bruto que o mestre acolhe na mão,
Pois quem cura a chaga do outro, opera a própria ascensão.
O fio invisível do cosmos tece o amparo no escuro:
A gota de amor que entregas quebra o teu próprio muro.

 

Perdoar é quebrar as correntes, dissolver o sal do passado,
É ver no erro do outro o espelho do ser desatado.
Mas esquecer... ah, esquecer é a meta do mago perfeito,
Apagar o traço do giz que o tempo gravou no peito.

 

Não chores o eco que falta, nem o afeto que não regressa,
No livro oculto da vida, nenhuma bondade se apressa.
Enquanto curas o mundo, no silêncio do plano divino,
A mão do Grande Arquiteto reescreve o teu destino.

 

 O Oceano no Cálice

 

Sirvo o vinho para aquecer o frio,
desse pedaço que em mim quebrou.
Aprendi a viver com o peito vazio,
e com a marca do que não passou.

 

Engoli a solidão em noites desertas,
chorei no escuro onde ninguém podia ver.
Algumas feridas nunca ficam abertas,
viram cicatrizes para nos erguer.

 

Mas há um mistério no fundo do pranto,
um Brinde sagrado à nossa dor.
Iluminação é o instante santo,
em que a onda se descobre oceano de amor.

 

Não sou o fragmento, não sou a ferida,
sou a imensidão que sabe acolher.
Bebo o vinho, celebro a vida,
Pois mesmo quebrado, eu sei florescer.

 

 

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